Justiça

O segredo dos 12 dias que podem custar R$ 14 mi ao São Paulo…

Zagueiro Ruan Tressoldi do São Paulo em campo, representando processo judicial de R$ 14 mi por lesão no joelho causada por maratona de jogos
Laudo pericial aponta nexo causal entre sequência de 4 jogos em 12 dias e grave lesão no joelho de Ruan Tressoldi, que cobra R$ 14 milhões do São Paulo.

Uma perícia judicial apontou nexo causal entre a maratona de jogos do São Paulo e a grave lesão no joelho de Ruan Tressoldi. O zagueiro cobra R$ 14 milhões em atrasados e indenizações, e a sentença de primeira instância deve sair na próxima semana. O que o laudo revela sobre a gestão de carga no futebol brasileiro?

O documento, assinado pelo perito Adalberto Soares, é taxativo: a sequência de quatro partidas completas em 12 dias, entre 29 de abril e 11 de maio de 2025, atuou “decisivamente na aceleração e agravamento lesivo”. O clube contesta a validade técnica do parecer.

A anatomia de um agravamento

Tressoldi chegou ao Morumbi em janeiro de 2025. Em maio, uma ruptura no menisco lateral o tirou de combate. A perícia analisou dados de GPS do próprio São Paulo e concluiu que o atleta não teve rodízio nem redução de minutos naqueles jogos decisivos.

Para o perito, houve um “nexo causal concomitante moderado”. Em termos práticos: o joelho já apresentava degeneração prévia, mas o esforço extremo imposto pelo clube transformou uma condição silenciosa em uma lesão cirúrgica. O laudo classifica isso como “agravamento da condição preexistente”.

Além da carga de jogos, a ausência de dois documentos obrigatórios nas normas de segurança do trabalho — Avaliação Ergonômica Preliminar e Programa de Gerenciamento de Riscos — foi registrada como contexto agravante, embora não como causa isolada.

Os números que o perito usou contra o clube

  • Período crítico: 29/04 a 11/05/2025 (12 dias).
  • Jogos: 4 partidas oficiais completas (90 min + acréscimos).
  • Gestão de minutos: Zero rotação, zero redução de carga.
  • Diagnóstico: Ruptura menisco lateral (maio/2025).
  • Cirurgia: Artroscopia em 08/07/2025.
  • Retorno: 08/10/2025 pelo Atlético-MG.

O perito rebateu o argumento do São Paulo sobre a pré-temporada de janeiro, quando o atleta percorreu 66 km sem se machucar. Segundo o laudo, a exigência fisiológica de jogos oficiais consecutivos é incomparável à de treinos e amistosos de preparação.

A defesa do São Paulo e a batalha técnica

O clube pede a desconsideração total do laudo. A alegação central: o perito é fisioterapeuta, não médico. Os advogados solicitam nova perícia com um profissional de medicina.

Paralelamente, a defesa sustenta que a rotura é a evolução natural da degeneração meniscal, independendo da carga de jogos. Argumenta ainda que a intensidade dos treinos foi reduzida entre as partidas da sequência contestada.

Até o momento, o perito manteve suas conclusões. A divergência técnica promete ditar os rumos da audiência marcada para os próximos dias.

O que está em jogo além do dinheiro

A ação cobra R$ 14 milhões entre salários atrasados, direitos de imagem e indenização por danos morais e materiais. Tressoldi alega ainda que o clube deixou de contratar seguro obrigatório, o colocou em campo com dores conhecidas e submeteu-o a tratamento classificado como experimental pelo Conselho Federal de Medicina à época.

Curiosamente, o laudo atesta que a capacidade laboral do zagueiro está “totalmente preservada”, sem sequela funcional ou dano estético. Hoje, ele é peça importante no Atlético-MG. A defesa do jogador, inclusive, discorda justamente desse ponto: contesta a ausência de sequelas reconhecidas.

O que observar daqui para frente

A sentença de primeira instância deve definir se a gestão de carga esportiva pode ser equiparada a responsabilidade trabalhista por acidente de trabalho. Se o juiz acolher o laudo do fisioterapeuta, abre-se precedente para que atletas exijam protocolos de periodização mais rigorosos — e judicializem o descumprimento.

Para gestores e investidores do futebol, o recado é claro: a ausência de documentação de ergonomia e gerenciamento de risco, somada à exposição excessiva de atletas com histórico clínico, deixa de ser apenas “estratégia de comissão técnica” e vira passivo judicial milionário. Acompanhe o desfecho; ele pode reescrever os contratos e os seguros da modalidade.