Em 2012, enquanto o PIB crescia 4% ao ano e o país celebrava o “agora vai”, um economista previu a estagnação e o risco à democracia. Doze anos depois, o diagnóstico se confirma: um acordo silencioso entre elites e eleitorado pobre travou o desenvolvimento e hoje cobra a fatura.
O modelo nasceu na Constituição de 1988. De um lado, a elite econômica manteve subsídios, cargos em estatais e proteção comercial herdados do regime militar. Do outro, o eleitor mediano — pobre — passou a exigir políticas sociais inexistentes até então. O resultado foi um Estado que atende a todos, do rico ao miserável, multiplicando o custo fiscal.
Como o modelo funcionou… até parar de funcionar
Por um tempo, a equação fechou. A expansão da China puxou exportações e a carga tributária ainda era suportável. O Estado provedor amplo mitigava o conflito distributivo: todos se sentiam atendidos e a democracia se consolidava. A desigualdade caiu e a pobreza recuou.
Mas a estrutura inibia o crescimento estrutural. Carga tributária crescente, cortes brutais em infraestrutura, economia fechada e má alocação de capital via subsídios políticos criaram um teto de vidro. Juros altos viraram a regra para conter a pressão inflacionária gerada pelo próprio gasto.
O momento em que a conta chegou
Com o fim do superciclo das commodities e o endividamento público nas alturas, o Estado deixou de entregar o prometido. O baixo crescimento gerou ressentimento em quem não ascende socialmente e em quem paga impostos sem ver retorno. A tensão política explodiu e o pacto que sustentava a democracia começou a rachar.
Havia uma saída: transformar o gasto social em produtividade. Se a educação tivesse formado uma nova classe média qualificada, a dependência de assistência cairia. Essa maioria pressionaria por fim de privilégios, abertura econômica e mais crescimento. O círculo virtuoso não aconteceu.
Onde a engrenagem travou de vez
- Educação: verbas multiplicaram, qualidade estagnou.
- Privilégios: subsídios à elite não apenas permaneceram, como cresceram.
- Dependência: um eleitorado dependente de assistência tornou-se conveniente para financiamento de campanhas e troca de favores.
Resultado: a desigualdade parou de cair. Ainda estamos entre os mais desiguais do planeta e quase 10 milhões de pessoas seguem na extrema pobreza, mesmo com a multiplicação de verbas sociais.
Novos vetores de instabilidade
O cenário piorou com fatores externos ao modelo original. A polarização internacional turbinada por redes sociais, a expansão do crime organizado e o choque da Covid-19 adicionaram camadas de complexidade. Redes de influência levaram à corrupção generalizada, atingindo até o principal guardião da estabilidade institucional — o STF —, que passou a operar sob lógica de proteção de grupos e viés partidário.
O que observar daqui para frente
Não há solução mágica para “salvar a democracia” sem enfrentar a raiz fiscal e distributiva do problema. O próximo ciclo exigirá escolhas dolorosas: reduzir subsídios à elite, qualificar o gasto social para gerar autonomia — não dependência — e reabrir a economia para ganhar produtividade. Quem acompanha o cenário deve monitorar a capacidade do sistema político de romper com a lógica de curto prazo que beneficia os atuais detentores de poder. Sem isso, a estagnação continua a alimentar o extremismo.
