Economia

O segredo que ninguém conta: 95% dos lançamentos em SP têm esse perfil

Prédio residencial moderno em São Paulo com apartamentos compactos para aluguel por temporada short stay
95,3% dos lançamentos em SP são unidades compactas voltadas ao modelo short stay com alta ocupação anual.

Nos primeiros oito meses de 2026, apartamentos compactos — estúdios e unidades de um ou dois quartos — responderam por 95,3% de tudo o que foi lançado na capital paulista. O volume total saltou 19,8% frente a 2025, atingindo 91.361 unidades, mas a concentração nesse perfil único esconde uma aposta arriscada de investidores.

O movimento não atende à demanda por moradia tradicional. Ele mira o “short stay”, aluguel por temporada que promete ocupação de 70% a 75% o ano todo. Será que a conta fecha com a Selic a 13,75%?

O investidor que não mora em São Paulo

Cidinaldo Boschini, empresário goiano de 47 anos, resume a lógica: ele possui dezenas de estúdios entre 22 m² e 25 m² na capital. “A grande vantagem é a taxa de ocupação estável, com pouca variação sazonal”, afirma. Perfil semelhante responde por 80% da clientela da Vitacon, incorporadora que transformou o formato em especialidade.

Os empreendimentos compensam a metragem enxuta com infraestrutura pesada: academia de ponta, coworking, lavanderia compartilhada e áreas de convivência. Tudo em endereços adensados, próximos a metrô e corredores de ônibus.

Quanto custa o metro quadrado da vez

Dois lançamentos recentes ilustram o patamar de preços:

  • Vitacon Alameda Franca (Jardim Paulista): 182 unidades de 19 m² a 37 m², entre R$ 30 mil e R$ 35 mil o m².
  • Vitacon Cardoso de Almeida (Perdizes): 525 estúdios de 24 m², média de R$ 22 mil o m².

Segundo Thiago Teixeira, gerente comercial do QuintoAndar, a tese de “endereço nobre” deu lugar à mobilidade e serviços. O último índice da plataforma (setembro/2026) revela valorizações surpreendentes:

Os bairros que ninguém esperava

Nos últimos 12 meses, Alto de Pinheiros (42%), Jardim Europa (27,3%) e Centro (27,1%) lideraram. Mas a aceleração recente — últimos três meses — migrou para a Zona Norte: Tucuruvi (13,7%) e Parque Novo Mundo (7,5%).

Vila Olimpia mantém o metro quadrado mais caro e o aluguel mais alto, mas Teixeira alerta: concorrência excessiva comprime a rentabilidade. “Preço de aluguel por m² não garante retorno se a vaga fica vazia”, diz.

O abismo entre novo e usado

Luiz Coelho da Fonseca, co-CEO da Coelho da Fonseca, aponta uma distorção histórica: imóveis novos sempre custaram 30% a 50% a mais que os usados. Hoje, o prêmio chega a 100%.

Isso empurra investidores para o mercado secundário, mas exige cautela. Prédios em reforma constante, falta de garagem, feiras livres na porta, vista emparedada ou ausência de privacidade transformam o “bom negócio” em dor de cabeça.

Selic alta: vilã ou aliada?

Para quem tem caixa, juros a 13,75% assustam compradores financiados e criam janelas de entrada. Boschini aprova o momento: “Dificulta a venda do outro lado, então se acha preço”.

Rodger Campos, professor do Insper Cidades, traça a linha: financiar unidade pronta (entrada de 30% e aluguel imediato) faz sentido. Comprar na planta para pagar durante a obra eleva o risco — a valorização precisa cobrir anos de carência e incertezas do entorno.

Checklist rápido antes de assinar

  • Apartamentos têm liquidez superior a casas; casas em condomínio batem casas de rua.
  • Verifique a convenção do condomínio: nem todos permitem locação por temporada.
  • Mapa de investimentos públicos/privados no entorno: shopping valoriza, viaduto pode desvalorizar.
  • Unidades de 1 quarto têm melhor preço por m², mas reajuste de 2 quartos acelera mais.
  • Bairros consolidados = caro e seguro. Expansão = potencial e risco.
  • Proximidade de hospitais/universidades garante demanda, mas atrai concorrência que derruba diárias.
  • Dois apartamentos de 25 m² rendem mais que um de 50 m² (diversificação de inquilinos e manutenção).

O que observar daqui para frente

A concentração extrema de lançamentos em um único perfil (compactos para investidor) cria um risco sistêmico: se a demanda por “short stay” arrefecer ou a regulamentação municipal endurecer, a oferta massiva de unidades semelhantes pode travar a liquidez justamente no segmento que mais cresceu. Monitorar a taxa de vacância real — não a projetada — nos próximos trimestres será o termômetro decisivo para quem já está posicionado ou planeja entrar.