O Jockey Club de São Paulo fechou acordo com a prefeitura para quitar um passivo tributário de R$ 871 milhões com um desembolso de apenas R$ 228 milhões. O desconto de R$ 643 milhões foi formalizado nesta quinta-feira (29) e tem como contrapartida a construção de um parque público de 85 mil m² na Zona Sul. Mas a negociação, aprovada por unanimidade pelos sócios, acendeu debates acalorados na Câmara Municipal.
Os números por trás do desconto bilionário
A dívida original, estimada em R$ 871 milhões, foi reduzida com base no Programa de Transação Tributária do município. O clube pagará R$ 228 milhões à vista, valor que representa cerca de 26% do total cobrado.
Segundo o conselheiro Renato Junqueira Filho, a nova gestão herdou um passivo total de R$ 1,3 bilhão, somando débitos tributários, trabalhistas e cíveis. O montante acertado com a prefeitura cobre apenas a fatia municipal.
O modelo financeiro prevê a venda de títulos do clube para captar recursos. O banco BTG Pactual estrutura a operação, que deve bancar tanto o pagamento à prefeitura quanto a obra do parque e a restauração do patrimônio tombado.
Parque na pista: o que a cidade ganha até 2028
Em troca do abatimento, o hipódromo cederá área interna para a criação de um parque municipal. A entrega está marcada para 1º de outubro de 2028, com investimento estimado de R$ 100 milhões.
O projeto prevê infraestrutura completa de lazer:
- Quadras esportivas e circuito de caminhada;
- Lagos e bosque sensorial;
- Espaços infantis e áreas para pets.
A gestão Ricardo Nunes (MDB) vê a obra como ganho ambiental e social para a região da Cidade Jardim, hoje restrita aos frequentadores do turfe.
CPI na Câmara expõe racha sobre legalidade e viabilidade
O acordo foi alvo de questionamentos na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instalada em novembro de 2025 para investigar as contas da entidade. O vereador Roberto Tripoli (PV) classificou a renúncia de receita como prejuízo superior a R$ 400 milhões.
Tripoli duvidou da capacidade do clube — que teria hoje apenas 400 sócios ativos — de gerar receita suficiente para honrar o plano de recuperação. “O turfe não sustenta essa dívida”, afirmou durante a sessão.
O presidente do Jockey, Vicente Renato Paolillo, rebateu alegando que grande parte do débito era contestada judicialmente. “Não reconhecemos alguns valores como devidos. A lei permite a transação”, argumentou.
Já o vereador Gilberto Nascimento (PL), presidente da CPI, avaliou o plano como viável para sanear a instituição e manter as portas abertas.
O que observar nos próximos passos
A assinatura do termo de cooperação envolve a Secretaria de Urbanismo (SMUL) e a Procuradoria Geral do Município (PGM), o que dá segurança jurídica ao cronograma. Porém, a execução depende da venda dos títulos prometida pela diretoria.
Se a captação falhar, o parque — principal ativo público do acordo — pode atrasar. Investidores e moradores da região devem monitorar os editais de emissão dos títulos e as primeiras licitações da obra, previstas para 2025. A regularização do passivo trabalhista e cível, fora do escopo municipal, permanece como incógnita para a saúde financeira de longo prazo do clube.
