O México restringiu o embargo sanitário apenas a Santa Catarina, mantendo aberto o mercado para o restante do Brasil — uma decisão que preserva cerca de US$ 1,2 bilhão em exportações anuais de carne de aves. O anúncio partiu do Ministério da Agricultura na sexta-feira (30), após o país vizinho reconhecer oficialmente a regionalização da doença de Newcastle.
Até então, qualquer foco da enfermidade no território brasileiro derrubava as portas mexicanas para todo o produto nacional. A mudança de critério representa a primeira aplicação prática do princípio de compartimentação sanitária entre os dois países.
O que muda na prática para o exportador
Produtores de Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo e demais estados seguem habilitados a embarcar para o mercado mexicano sem interrupções. Apenas plantas localizadas em Santa Catarina — onde seis focos foram confirmados este mês em aves de subsistência — ficam temporariamente fora da lista.
Em 2023, o México importou 182 mil toneladas de carne de frango do Brasil, faturando US$ 340 milhões apenas no primeiro semestre. Santa Catarina respondia por cerca de 15% desse volume.
Por que o reconhecimento de regionalização é um divisor de águas
A Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) prega que doenças de notificação obrigatória não devem paralisar o comércio de países inteiros quando a circulação viral está contida em áreas delimitadas. O Brasil pleiteava esse tratamento desde 2019.
O aceite mexicano cria precedente para negociações com outros destinos sensíveis, como Japão, Coreia do Sul e União Europeia, que ainda aplicam embargos totais diante de focos isolados.
- Prazo estimado para reabertura de SC: 90 a 120 dias após erradicação dos focos
- Estados não afetados: 26 unidades da federação mantêm status inalterado
- Volume protegido: ~155 mil toneladas/ano fora da zona de embargo
O cenário dentro de Santa Catarina
Os focos foram detectados em criações de fundo de quintal nos municípios de Maravilha, Pinhalzinho e Chapecó. Nenhuma granja comercial de grande porte registrou a doença. O serviço veterinário estadual já aplicou sacrifício sanitário, quarentena e vigilância em raio de 10 km.
Mas o efeito cascata atinge a logística: portos catarinenses movimentam 40% das exportações nacionais de proteína animal. Com a restrição, cargas precisam ser reroteadas para Paranaguá (PR) e Rio Grande (RS), elevando fretes em até 18%.
Próximos passos e o que o setor deve monitorar
O Ministério da Agricultura protocolará ainda esta semana o dossiê técnico comprovando a erradicação dos focos. A autoridade mexicana (SENASICA) tem 30 dias para avaliar e publicar a reabilitação.
Enquanto isso, a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal) orienta associados a manterem rastreabilidade rigorosa de lote e origem — exigência que deve se tornar padrão em novos acordos bilaterais. O teste real virá se houver novo foco fora de SC: o México manterá a regionalização ou voltará ao embargo amplo?
Para o investidor, o sinal é claro: a governança sanitária brasileira ganhou credibilidade internacional. Empresas com ativos diversificados entre estados saem na frente; quem concentra produção em Santa Catarina precisa precificar o risco de sazonalidade logística nos próximos trimestres.
