A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) confirmou a realização de três leilões de transmissão em 2027, com potencial de atrair investimentos superiores a R$ 50 bilhões. O anúncio foi feito pelo secretário de Leilões, Ivo Sechi Nazareno, logo após o último certame de 2026 na B3. O cronograma agressivo coloca o primeiro leilão já em abril, mas é no segundo semestre que reside a grande novidade tecnológica.
O cronograma agressivo para o próximo ano
A programação prevista pela autarquia divide o ano em três momentos distintos. O pontapé inicial ocorre em abril, seguindo o modelo tradicional de corrente alternada. A partir de outubro, entretanto, o cenário muda de figura com dois certames que serão instruídos de forma conjunta, embora realizados em meses separados.
Veja como fica o calendário preliminar:
- Abril: Leilão de transmissão em corrente alternada (convencional);
- Outubro: Leilão do novo sistema em corrente contínua com tecnologia VSC;
- Dezembro: Leilão complementar de corrente alternada.
A decisão de instruir os dois últimos processos em bloco busca otimizar a análise técnica e jurídica, garantindo sinergia entre os empreendimentos. Mas o efeito mais relevante aparece na tecnologia escolhida para outubro.
A tecnologia VSC que muda o jogo
O leilão de outubro trará a estreia comercial no Brasil da tecnologia VSC (Voltage Source Converter) em corrente contínua de alta tensão (HVDC). Diferente dos sistemas LCC (Line Commutated Converter) usados nas grandes linhas atuais — como as interligações Norte-Sudeste —, o VSC permite controle independente de potência ativa e reativa, partida em rede “morta” e ocupação física reduzida nas subestações.
Segundo Nazareno, a complexidade técnica é maior, mas a modernidade do sistema viabiliza projetos em áreas urbanas densas ou de difícil acesso. “Provavelmente esses contratos que se originarem desse leilão serão os maiores que o Brasil já contratou em transmissão”, afirmou o diretor da Aneel. A expectativa é que a inovação eleve o teto de investimentos por lote, atraindo consórcios com apetite por ativos de longo prazo e alta sofisticação de engenharia.
Impacto direto para investidores e cadeia de suprimentos
Para o mercado financeiro e para a indústria de bens de capital, o volume projetado — acima de R$ 50 bilhões — sinaliza uma onda de capex (investimento em capital fixo) relevante em um curto espaço de tempo. A segregação de atividades entre os leilões de outubro e dezembro deve permitir que players especializados em corrente contínua foquem no ativo VSC, enquanto grupos tradicionais disputam os lotes de alternada em dezembro.
Além disso, a instrução conjunta dos editais do segundo semestre reduz a assimetria de informação. Investidores poderão avaliar o portfólio completo de ativos de uma só vez, precificando sinergias logísticas e financeiras entre lotes vizinhos. Isso tende a aumentar a competitividade nas sessões de viva-voz na B3, pressionando as taxas de retorno para baixo — o que beneficia o consumidor final via modicidade tarifária.
O que observar daqui para frente
A publicação dos editais e dos estudos de viabilidade técnica será o termômetro real do apetite do mercado. Acompanhe a definição dos critérios de habilitação para a tecnologia VSC, que deve exigir comprovação de experiência prévia ou parcerias com detentores da tecnologia (como Hitachi Energy, Siemens Energy ou GE Vernova).
Outro ponto crítico é o ambiente de funding. Com a Selic em patamar elevado no horizonte de 2027, a estruturação de dívida de longo prazo (project finance) para empreendimentos de 30 anos exigirá criatividade no mercado de debêntures incentivadas e no BNDES. Quem antecipar a modelagem financeira compatível com o novo marco regulatório sairá na frente na disputa pelos maiores contratos da história da transmissão brasileira.
