O senador Flávio Bolsonaro (PL) esteve nos Estados Unidos nesta semana buscando alinhamento direto com Donald Trump, mas a relação entre os dois revela mais distâncias do que a retórica sugere. Apesar da afinidade ideológica, o ex-presidente americano evitou endossar publicamente o parlamentar brasileiro. O que está por trás dessa cautela e quais os reflexos reais para a economia e a segurança do país?
A resposta passa por uma teia de interesses que envolve tarifas comerciais, classificação de facções criminosas e o futuro do sistema de pagamentos instantâneos. Entender esse tabuleiro é essencial para quem opera no mercado brasileiro.
O encontro que não aconteceu (como o planejado)
Flávio e Trump estiveram frente a frente apenas uma vez, em maio de 2026, na Casa Branca. Desde então, o republicano recusou-se a gravar vídeos de apoio, atender pedidos de interferência eleitoral ou mesmo comentar a carta em que o senador se autodeclarava “líder do Brasil”.
Questionado na última quarta-feira (28), Trump foi direto: “Nós demos a ele uma autorização para entrar no país. Mas não vou me envolver”. Na véspera, havia admitido que Luiz Inácio Lula da Silva pediu pessoalmente sua neutralidade na disputa brasileira — pedido que foi atendido.
O cálculo de Trump é simples: as eleições legislativas americanas de terça-feira (3) definem o controle do Congresso. Qualquer ruído internacional desnecessário vira munição para os democratas.
O “sim” que valeu bilhões: PCC e CV na lista de terror
Se o apoio eleitoral ficou no “quase”, a cooperação em segurança rendeu resultado prático. No encontro de maio, Flávio solicitou a inclusão do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) na lista de organizações terroristas estrangeiras (FTO).
Em junho, o Departamento de Estado atendeu. Na prática, a decisão abre caminho para:
- Bloqueio de ativos vinculados às facções sob jurisdição americana;
- Proibição de transações financeiras com os grupos;
- Responsabilização criminal de quem prestar “apoio material” a eles.
O governo brasileiro contestou a medida, alegando risco à soberania. Promotores como Lincoln Gakiya (MP-SP) alertaram que a classificação pode atrapalhar investigações locais e a cooperação jurídica. Para o setor financeiro, o alerta é imediato: compliance e due diligence precisam ser revistos para evitar sanções secundárias.
Tarifaço de 25%: a conta que chegou para o agronegócio
Horas após o anúncio sobre as facções, Washington divulgou novas tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, resultado de uma investigação comercial (Section 301). Flávio reagiu enviando carta ao Secretário de Estado Marco Rubio pedindo a suspensão das taxas “até que eu seja eleito”, propondo negociar um acordo bilateral futuro.
O episódio gerou atrito diplomático. Aliados de Lula acusaram os irmãos Bolsonaro de articular a pressão americana. Flávio nega e afirma ter pedido a Trump diretamente para não impor as taxas. Independentemente da autoria, exportadores de aço, alumínio e carnes já sentem o impacto nas margens.
A defesa do Pix no escritório de comércio dos EUA
Outra frente sensível envolve o sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central. Representantes comerciais americanos passaram a ver o Pix como ameaça a Visa e Mastercard, citando-o inclusive como justificativa para o segundo pacote de tarifas.
Em julho, Flávio protocolou manifestação no USTR (Escritório do Representante de Comércio) defendendo o sistema. Os argumentos centrais foram:
- O Pix não substitui funções de crédito, financiamento e chargeback dos cartões;
- O FedNow, equivalente americano, opera no mesmo modelo;
- Compromisso legislativo de não internacionalizar o Pix, mantendo-o como infraestrutura doméstica.
A sinalização acalma investidores de fintechs e bancos, mas mantém o radar ligado: qualquer mudança na postura do USTR pode alterar a atratividade do setor de meios de pagamento no Brasil.
Lei Magnitsky: sanções a Moraes e a volatilidade jurídica
Em julho de 2025, Flávio comemorou a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes (STF) e outros magistrados, acusados de “censura e detenções arbitrárias”. A medida foi revertida em dezembro do mesmo ano, com a retirada dos nomes da lista de sanções.
O vaivém expõe a fragilidade de estratégias baseadas em pressão externa sobre o Judiciário brasileiro. Para fundos de investimento e escritórios de advocacia, o episódio serve como estudo de caso sobre risco regulatório e soberania: decisões políticas nos EUA podem criar — e desfazer — passivos jurídicos no Brasil em meses.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o próximo capítulo: o resultado das eleições legislativas americanas (terça-feira), a tramitação da reforma tributária no Brasil e a corrida presidencial de 2026.
Se os republicanos conquistarem o Congresso, a tendência é endurecimento comercial e maior abertura para pautas de “lawfare” solicitadas pela oposição brasileira. Se os democratas mantiverem ou ampliarem o poder, a relação deve esfriar, priorizando canais diplomáticos tradicionais.
Para o tomador de decisão, a lição é clara: não confunda alinhamento retórico com poder de entrega. A visita de Flávio rendeu vitórias pontuais em segurança, mas custos certos em comércio e incerteza jurídica. O pragmatismo exige monitorar os atos — não os discursos — de ambos os lados do hemisfério.
