Economia

Boi a R$ 400: o segredo por trás da alta que muda seu churrasco

Boi gordo em pasto com etiqueta de preço R$ 400/@ representando alta histórica da arroba
Arroba do boi gordo supera R$ 400 em São Paulo, pressionando preços da carne no varejo.

A arroba do boi gordo rompeu a barreira dos R$ 400 em regiões paulistas de oferta restrita, enquanto a média estadual do Cepea ronda R$ 390. O reflexo imediato: a carne bovina acumula 9% de alta no varejo de São Paulo só em 2024.

Mas o que está por trás desse movimento vai muito além da seca ou do dólar. Uma reação em cadeia no mercado de proteínas pode redesenhar o custo da proteína na mesa do brasileiro nos próximos meses.

O filé mignon puxa a fila — e o frango ganha espaço

Nos últimos 28 dias, o filé mignon disparou 8% nas gôndolas paulistanas. O patinho subiu 3,4%. Essa escalada abriu uma janela de competitividade para a carne de frango que não se via há tempos.

Hoje, 1 kg de carcaça bovina casada equivale a 3,24 kg de frango resfriado. Há um ano, a relação era de 2,71 kg. Na prática, o consumidor leva mais de três quilos de frango pelo preço de um quilo de boi.

O mesmo cálculo com a carne suína mostra 2,63 kg de carcaça de porco por quilo de boi — relação que era de 3,14 kg no mês passado, sinalizando que o porco também encareceu, mas em ritmo menor.

O fator Newcastle: Santa Catarina pode virar o jogo

Um surto de doença de Newcastle em quatro municípios catarinenses — Nova Itaberaba, Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim — acendeu o alerta no mercado global.

Países importadores reagiram de formas distintas:

  • Alguns fecharam as portas para todo o frango brasileiro
  • Outros bloquearam apenas o produto de Santa Catarina
  • A maioria restringiu apenas a área afetada

Se as barreiras se ampliarem, o excedente de frango que iria para exportação fica no mercado interno. Isso derruba o preço da ave e amplia ainda mais a vantagem sobre o boi.

Exportações: volume cai, preço sobe — mas até quando?

Em outubro, as exportações diárias de carne bovina recuaram 34% frente a igual período de 2023, para 10 mil toneladas. As “amarras” da China e da União Europeia explicam o tombo.

O contraponto: o preço médio no exterior subiu 14%. O pecuarista ganha mais por quilo, mas vende menos volume. O saldo final depende de quanto tempo duram as restrições sanitárias e comerciais.

O xadrez sanitário global beneficia o Brasil — por enquanto

Os três maiores exportadores mundiais de frango enfrentam crises simultâneas:

  • EUA: gripe aviária em todo o território; 210 milhões de aves eliminadas desde 2022
  • Europa: mesmo cenário de influenza aviária
  • Brasil: livre de gripe aviária desde 2023, mas agora com Newcastle em SC

Enquanto o Brasil mantiver o status sanitário favorável nas demais regiões, a demanda externa por frango brasileiro tende a sustentar os preços — limitando a queda no mercado interno.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão o preço da proteína nos próximos 60 dias: a evolução do surto em Santa Catarina e a resposta dos importadores; o ritmo de abates no segundo giro de confinamento; e a disposição da China em flexibilizar as compras de bovinos.

Se o frango ficar mais barato no varejo, o consumidor migra. Se o boi seguir escasso, o pecuarista segura a oferta. O equilíbrio frágil entre sanidade, câmbio e apetite externo dita a conta do açougue — e do seu negócio.