Economia

Boi a R$ 400 muda o jogo: o risco oculto no frango que pode virar a mesa

Boi gordo em pasto com texto sobre arroba a R$ 400 e alta da carne no varejo
Arroba do boi gordo supera R$ 400 em São Paulo, pressionando preços no varejo.

A arroba do boi gordo furou a barreira dos R$ 400 em praças paulistas de oferta restrita, puxando a carne no varejo para uma alta de 9% no ano. Mas um surto sanitário em Santa Catarina pode inverter a lógica de substituição de proteínas nos próximos dias.

O Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) aponta a média estadual próxima de R$ 390/@. No varejo da capital, a Fipe mede avanço de 2,3% apenas nas últimas quatro semanas. O filé mignon dispara 8% no período, enquanto o patinho sobe 3,4%.

O poder de troca que pesa no bolso

A relação de troca expõe o aperto: hoje, 1 kg de carcaça casada bovina equivale a 3,24 kg de frango resfriado. Há um ano, a mesma carne comprava apenas 2,71 kg da ave. Frente ao suíno, a proporção caiu de 3,14 para 2,63 kg no último mês.

  • Boi x Frango: 3,24 kg (era 2,71 kg em out/2023)
  • Boi x Suíno: 2,63 kg (era 3,14 kg em set/2024)

Na prática, o consumidor migra para a ave. O problema é que essa válvula de escape pode estar com os dias contados.

Newcastle em SC: o cisne negro da avicultura

Focos da doença de Newcastle em Nova Itaberaba, Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim acenderem o alerta global. Dezenas de países fecharam as portas para o frango brasileiro — alguns para todo o produto nacional, outros apenas para Santa Catarina ou para a zona de risco.

Se as barreiras se mantêm ou se expandem, a carne de frango que iria para exportação fica retida no mercado interno. O resultado imediato: oferta abundante e pressão de baixa no preço da ave, ampliando ainda mais a vantagem competitiva frente ao boi.

Exportações em rota de colisão

O boi já sente o freio externo. Em outubro, o volume médio diário embarcado recuou 34% ante 2023, para 10 mil toneladas, travado por exigências da China e da União Europeia. O preço médio subiu 14%, mas não compensa a perda de volume.

No front aviário, o cenário global é de “tempestade perfeita”: EUA e Europa combatem gripe aviária (210 milhões de aves abatidas nos EUA desde 2022), enquanto o Brasil, livre da influenza, agora lida com o Newcastle. Quem consegue exportar ganha prêmio; quem fica retido, inunda o mercado doméstico.

Máquinas sinalizam cautela no campo

O termômetro do investimento agrícola nos EUA reforça a prudência. De janeiro a setembro, as vendas de tratores caíram 13% (155 mil unidades) e as de colheitadeiras, 9% (2.432 unidades), segundo a AEM. Menos equipamento novo sugere expectativa de margens apertadas para grãos — insumo direto da pecuária intensiva.

O que monitorar daqui para frente

Três variáveis ditam o curto prazo: a velocidade de contenção do foco catarinense e a reação dos importadores asiáticos e árabes; a disposição chinesa em flexibilizar as travas à carne bovina brasileira; e a resistência do varejo interno em repassar novos aumentos ao consumidor final, já pressionado pelo acumulado de 9% no ano. Se o frango baratear de vez, o teto do boi pode ser testado antes do natal.