O ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, confessou à Polícia Federal ter recebido uma proposta para comandar uma holding que reuniria ativos do Banco Master. O convite, formalizado no fim de outubro de 2024, exigiria sua saída antecipada do banco público e o desligamento de todos os cargos públicos. A negociação, porém, nunca saiu do papel.
O depoimento expõe uma teia de interesses que envolve apartamentos de alto padrão, aval do governador do Distrito Federal e uma estrutura societária desenhada para ocultar o controle real. O que parecia uma simples transição de carreira revela, nas entrelinhas, um cenário de captura institucional.
O convite que mudaria tudo em outubro
Segundo o relato de Costa, Daniel Vorcaro — controlador do Master — propôs que ele assumisse a presidência de uma nova holding financeira. Sob esse guarda-chuva, estariam instituições ligadas ao Master, incluindo o próprio BRB. A condição era clara: pedir demissão do banco público e abandonar qualquer função no setor público.
Antes de responder, Costa procurou o governador Ibaneis Rocha (MDB). A resposta foi direta: “Tá tudo bem”. O ex-presidente interpretou o sinal verde como autorização para sair antes do fim do mandato, rompendo o compromisso de cumprir as metas estabelecidas.
Seis apartamentos de luxo e a mudança para São Paulo
A delegada que conduziu o interrogatório trouxe à tona um detalhe que chama atenção: a negociação envolvia seis imóveis de alto luxo, distribuídos entre São Paulo e Brasília. A pergunta era direta — Costa seria beneficiário?
Ele negou qualquer vantagem indevida. A justificativa: a necessidade de morar na capital paulista para tocar a holding. Por isso, incluiu no contrato de trabalho uma cláusula de moradia nas duas cidades. “Se tudo se concretizasse. Nunca se concretizou”, reforçou.
- Data do convite: fim de outubro de 2024
- Condição contratual: moradia em São Paulo e Brasília
- Imóveis em discussão: seis apartamentos de alto padrão
- Desfecho: acordo não se concretizou
O aval do governador e a “captura institucional”
O relatório da PF vai além do depoimento. Aponta que o Banco Master passou a integrar, de forma indireta, a estrutura acionária do BRB. A operação teria usado fundos de investimento — Borneo, Verbier e Delta — estruturados para ocultar o beneficiário final e evitar a caracterização formal de controle.
Mais grave: decisões estratégicas da relação BRB-Master eram submetidas ao governador antes de passarem pelos órgãos formais de governança. Para a PF, isso evidencia centralização decisória e interferência política direta na condução de uma instituição financeira pública.
“Tal atuação é indicativa de captura institucional, na medida em que a estrutura de decisão do banco foi alinhada a interesses específicos, em detrimento dos princípios de impessoalidade, moralidade e interesse público”, conclui o relatório.
O que a defesa alega
Os advogados de Costa sustentam que decisões dessa magnitude exigiam aprovação do Conselho de Administração, onde o Governo do DF tem assento. Argumentam que, mesmo havendo intenção ilícita, a governança interna e o próprio conselho teriam barrado a operação. O ex-presidente segue confiante na apresentação da “verdade dos fatos”.
O que observar daqui para frente
O inquérito segue em andamento. Três frentes merecem atenção nos próximos meses: o desdobramento da apuração sobre os fundos Borneo, Verbier e Delta; a eventual responsabilização de agentes públicos pela quebra de governança; e o impacto reputacional sobre o BRB, que precisará demonstrar ao mercado e aos órgãos de controle que seus mecanismos internos funcionam. Para investidores e gestores de instituições públicas, o caso serve de alerta: estruturas societárias opacas e decisões fora do rito formal são sinais vermelhos que não podem ser ignorados.
