Rodrigo e Rogério Nogueira saíram do octógono para uma arena ainda mais desafiadora: a gestão de uma rede que já passa de 30 unidades. A transição de atletas para empresários exigiu mais do que nome forte — demandou método, padronização e decisões que a maioria dos fundadores evita.
O resultado? Uma operação que fatura alto sem depender da presença dos sócios no dia a dia. Mas o caminho até aqui guarda lições que valem para qualquer negócio que queira escalar sem perder a identidade.
Da lona para a planilha: o choque de realidade
Quando abriram a primeira academia, os irmãos perceberam cedo que reputação no MMA não garante gestão eficiente. Alunos apareciam pela marca, mas a retenção dependia de processos que não existiam.
Faltava controle de matriculas, padrão de aula, métricas de desempenho de instrutores. Cada unidade funcionava como um feudo — e isso travava o crescimento.
A virada veio com a contratação de um CEO de fora do meio esportivo. Alguém sem vínculo emocional com o “jeito Nogueira” de fazer as coisas, mas com bagagem em franquias e varejo.
Três decisões que mudaram o jogo
- Manual de operações obrigatório: toda aula, do aquecimento ao alongamento final, passou a seguir roteiro único — sem tirar a autonomia técnica dos professores.
- KPIs semanais por unidade: taxa de ocupação, churn, ticket médio e NPS viraram rotina de segunda-feira, não surpresa de fim de mês.
- Universidade corporativa interna: instrutores contratados passam por imersão de 40 horas antes de pisar no tatame — cultura, didática, segurança, vendas.
O investimento em capacitação absorve cerca de 8% da folha, mas reduziu a rotatividade de professores em 62% nos primeiros 18 meses.
O efeito nos pequenos franqueados
A rede adota modelo misto: unidades próprias e franquias. Para o franqueado, a promessa não é “nome famoso atrai aluno” — é “sistema testado reduz seu risco”.
Dados internos mostram que franquias Nogueira atingem break-even médio em 14 meses, ante 22 meses da média do setor fitness no Brasil. O suporte contínuo — visita mensal de consultor de campo, revisão trimestral de P&L — é o diferencial real.
Mas nem tudo são flores. A padronização rigorosa já gerou atritos com empreendedores acostumados a “adaptar a marca ao bairro”. A rede perdeu três candidatos a franquia só no último ano por incompatibilidade cultural.
Por que a expansão desacelerou em 2023
Após abrir 11 unidades em 2022, o ritmo caiu para quatro no ano seguinte. A explicação não é demanda — é seletividade.
Os sócios passaram a exigir que o franqueado tenha experiência prévia em gestão de equipes ou operação de varejo. “Dinheiro a gente encontra. Gente preparada para executar o padrão, não”, resume Rodrigo em entrevistas recentes.
A estratégia reflete lição dura: uma unidade mal gerida queima a reputação de dez bem-sucedidas.
O que observar daqui para frente
A aposta atual é a verticalização de receitas: suplementação própria, app de treino remoto, certificação de personal trainers terceirizados. Canais que escalam sem demandar metro quadrado novo.
Outro movimento silencioso: a preparação para sucessão. Os irmãos, hoje na casa dos 40 anos, já mapeiam lideranças internas para cargos de direção — inclusive fora da família.
Para quem acompanha o caso, a lição prática é clara: marca forte abre portas. Só sistema consistente as mantém abertas. E a disposição de abrir mão do controle operacional — contratando quem sabe fazer o que você não sabe — costuma ser o divisor entre negócio de atleta e empresa de verdade.
