O dólar abriu esta quinta-feira (29) com alta de 0,37%, cotado a R$ 5,3599, enquanto o Ibovespa só inicia negócios às 10h. A moeda americana acumula ganho de 6,95% na semana, mas o verdadeiro teste vem nas próximas horas com a divulgação do PCE e do PIB dos Estados Unidos.
Por que o Fed não mexeu nos juros — e o que isso muda agora
O Federal Reserve manteve a taxa na faixa de 3,75% a 4% na reunião anterior. A decisão já era esperada, mas o comunicado deixou a porta aberta para novos cortes apenas se a inflação der sinais consistentes de arrefecimento. O mercado precifica agora uma chance de 60% de redução em setembro, contra 80% há duas semanas.
O dado de hoje — o índice de preços de gastos com consumo (PCE), medida preferida do Fed — dirá se essa aposta se sustenta. Um número acima de 0,2% na comparação mensal pode adiar o alívio monetário e fortalecer o dólar globalmente.
O PIB americano que ninguém está ignorando
Além da inflação, sai a segunda leitura do PIB do primeiro trimestre. A estimativa anterior mostrou crescimento anualizado de 1,6%, bem abaixo do consenso de 2,5%. Se a revisão confirmar a desaceleração, o cenário de “pouso suave” ganha força. Se vier mais forte, o Fed ganha argumentos para manter juros altos por mais tempo.
Para o investidor brasileiro, a equação é simples: juros altos lá fora + risco fiscal aqui = pressão cambial. O real já é uma das moedas emergentes que mais se desvalorizou no mês.
Reforma tributária: a conta de 2027 já chegou
Enquanto o exterior dita o ritmo curto, o Brasil desenha o cenário estrutural. Dois movimentos marcaram a quarta-feira:
- CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços): TCU aprovou alíquota de referência de 11,3% para 2027. O valor segue para o Senado, que define a alíquota final até 15 de dezembro.
- ICMS dos combustíveis: Confaz atualizou as alíquotas de gasolina, diesel e gás de cozinha a partir de 2027. A medida foi publicada no DOU.
Na prática, o IVA dual (CBS + IBS) começa com 0,1% de alíquota transitória em 2027-2028, subindo gradativamente a partir de 2029. Empresas terão crédito não cumulativo nas etapas da cadeia — o que reduz custo final, mas exige adaptação de sistemas e fluxo de caixa.
O que os números da semana revelam sobre o humor do mercado
O desempenho acumulado expõe a assimetria de risco:
- Dólar: +6,95% na semana | +3,20% no mês | -2,71% no ano
- Ibovespa: -16,62% na semana | -8,23% no mês | +6,13% no ano
A bolsa devolveu em cinco dias o ganho de meses. O estrangeiro retirou R$ 12,4 bilhões da B3 só em maio até o dia 27. O fluxo segue sensível à percepção de risco fiscal e à taxa de câmbio.
Ásia ignora ruído e sobe com IA
Do outro lado do mundo, o otimismo com resultados da SK Hynix impulsionou ações de chips. Xangai (+0,9%), Tóquio (+1,08%), Seul (+6,63%) e Hong Kong (+0,23%) fecharam no azul. O setor de tecnologia funciona como termômetro de apetite a risco global — e, por ora, o sinal é positivo.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definem os próximos passos: (1) PCE e PIB dos EUA às 9h30 — qualquer surpresa mexe no câmbio imediato; (2) tramitação da alíquota da CBS no Senado — o valor final impacta projeções de receita e custo para 2027 em diante; (3) fluxo estrangeiro na B3 — se a saída persistir, o dólar testa R$ 5,40 nas próximas sessões. Empresas com exposição a importações ou dívida em dólar devem rever hedge. Investidores de renda variável, monitorar o suporte dos 125 mil pontos no Ibovespa.
