Economia

Dólar a R$ 5,36: O que o mercado esconde sobre 2027

Gráfico de câmbio dólar-real a R$ 5,36 com seta de alta, ícones do Federal Reserve e Brasília
Dólar a R$ 5,36 reflete tensão entre juros dos EUA e decisões fiscais no Brasil com impactos até 2027.

O dólar abriu esta quinta-feira (29) em alta de 0,37%, cotado a R$ 5,3599, enquanto investidores digerem dados frescos de inflação e atividade nos EUA. Mas o movimento cambial é apenas a ponta do iceberg: decisões tomadas agora em Brasília prometem redefinir o custo de vida e o lucro das empresas daqui a três anos.

O gatilho imediato vem de fora. O Federal Reserve manteve os juros entre 3,75% e 4%, e o mercado aguarda o PCE e o PIB americanos para calibrar as apostas de corte. Uma economia forte lá fora joga o dólar para cima daqui, pressionando a inflação interna e dificultando a vida do Banco Central.

A conta da reforma tributária chega em 2027

Enquanto o exterior dita o ritmo de curto prazo, o Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) mexeu no tabuleiro doméstico. Foi aprovada a atualização anual das alíquotas do ICMS sobre gasolina, diesel e gás de cozinha, com vigência a partir de 2027.

Paralelamente, o Tribunal de Contas da União (TCU) referendou a alíquota de referência da CBS — o novo tributo federal sobre consumo — em 11,3% para o mesmo ano. A taxa ainda precisa do aval do Congresso, mas já serve de parâmetro para projeções de carga tributária.

  • ICMS combustíveis: Atualização automática anual a partir de 2027.
  • CBS (Federal): Alíquota de referência fixada em 11,3% pelo TCU.
  • Impacto: Base de cálculo para preços ao consumidor e margens corporativas.

Pressão fiscal: Promessa de centro da meta e tesoura no orçamento

A reeleição do presidente Lula intensificou a cobrança por responsabilidade fiscal. O medo do mercado: descontrole da dívida pública, crédito mais caro e Selic alta novamente.

Em resposta, o Ministério da Fazenda anunciou que enviará ao Congresso projeto de lei para tornar obrigatório o cumprimento do centro da meta fiscal em 2027. Na prática, isso obriga o governo a bloquear verbas (contingenciamento) se a arrecadação decepcionar, limitando gastos dos ministérios.

O secretário-executivo Dario Durigan admitiu que outras medidas de reforço de confiança estão em estudo, sem detalhar quais. A promessa é eliminar “dúvidas jurídicas” sobre o compromisso fiscal.

Imposto do Pecado: A lista dos vilões já tem data

Outra frente que avança rápido é a regulamentação do Imposto Seletivo. O texto deve ser enviado ao Legislativo ainda esta semana. A cobrança estreia em 2027 e mira produtos danosos à saúde e ao meio ambiente.

Entram na mira: bebidas alcoólicas, refrigerantes, cigarros, veículos poluentes, extração mineral, loterias, apostas e fantasy sports. Para setores afetados, o planejamento tributário e de precificação precisa começar agora.

Cenário externo: Ásia ignora ruídos e foca em IA

Longe da tensão fiscal brasileira, as bolsas asiáticas fecharam em alta. O destaque foi o setor de semicondutores, impulsionado por balanço otimista da SK Hynix.

  • Xangai (SSEC) e CSI300: +0,9%
  • Nikkei (Japão): +1,08%
  • Kospi (Coreia do Sul): +6,63%
  • Hang Seng (Hong Kong): +0,23%

O apetite por risco em tecnologia contrasta com a cautela nas emergentes, onde o fiscal dita as regras.

O que observar daqui para frente

O fechamento desta quinta traz o termômetro exato: se o PCE dos EUA vier acima do esperado, o dólar testa R$ 5,40 e a curva de juros brasileira abre. No front doméstico, a tramitação do PL da meta fiscal e o texto do Imposto Seletivo no Congresso são os termômetros da credibilidade. Para o empresário e investidor, a leitura é clara: o custo Brasil de 2027 está sendo escrito hoje. Ajustar hedge, precificação e estrutura de capital agora não é precaução — é sobrevivência.