Economia

O segredo da Indigo para faturar R$ 2 bi: aeroportos, parques e o fim da 6×1

CEO Thiago Piovesan da Indigo Brasil em estacionamento de aeroporto com gestão automatizada
Thiago Piovesan, CEO da Indigo Brasil, lidera expansão para aeroportos e parques visando R$ 2 bi em 2026.

A Indigo, multinacional francesa líder em gestão de estacionamentos no Brasil, mira faturamento de R$ 2 bilhões em 2026 apostando em aeroportos e parques. Mas a verdadeira prova de fogo para a operação — que responde por metade dos funcionários globais da empresa — será sobreviver à transição do fim da escala 6×1 sem quebrar a rentabilidade.

O CEO Thiago Piovesan revelou a estratégia em entrevista exclusiva. O plano envolve uma combinação arriscada: expansão agressiva em ativos de lazer, automação cirúrgica em hospitais e uma revolução cultural no atendimento ao cliente.

Por que shoppings deixaram de ser a única aposta

Durante anos, os shopping centers foram o motor da Indigo. Hoje, a empresa administra vagas em 190 empreendimentos, mas o crescimento real vem de outro lugar. Aeroportos e áreas de entretenimento concentraram as maiores oportunidades recentes.

São 12 aeroportos sob gestão, além de ativos como o Parque Ibirapuera, o Parque Nacional do Iguaçu e os aquários de São Paulo e Balneário Camboriú. O fluxo nesses locais não depende do varejo tradicional, mas do turismo e lazer — setores mais resilientes à oscilação do consumo.

O efeito “compensação” que salvou os shoppings

Piovesan admite monitorar a ameaça do e-commerce, mas aponta um contraponto inesperado. A perda de lojas físicas foi compensada pela expansão de áreas de gastronomia e lazer nos shoppings.

Esse movimento manteve o fluxo de veículos estável. Na prática, o estacionamento deixou de ser apenas “suporte ao varejo” para virar “suporte à experiência”.

O tsunami trabalhista: 1.600 vagas para preencher

Aqui mora o maior risco operacional. A Indigo tem 5.000 funcionários no Brasil — 350 administrativos e o restante na ponta (manobristas, caixas, cancela). Um terço dessa força atua na escala 6×1.

Com o fim desse regime, a expectativa é de contratações substanciais, concentradas no setor hospitalar (operações 24/7). A conta não fecha apenas com gente: a taxa de juros alta freia investimentos em expansão, exigindo eficiência imediata.

  • Rotatividade alta: piso salarial, desemprego baixo e “políticas públicas” incentivam a troca constante de emprego.
  • Dispersão geográfica: gerir gente em mais de 100 municípios dificulta padronização e retenção.
  • Cultura de serviço: diferentemente da França (totalmente automatizada), o Brasil privilegia atendimento presencial — o que encarece a operação.

Tecnologia como escudo, não substituto

A resposta para o aperto de custos não é robotizar tudo. A Indigo usa inteligência artificial para mapear sazonalidade a partir de 95 milhões de veículos/ano. Esse banco de dados permite comparar a performance de um shopping com a média do setor e ajustar preços ou pessoal com precisão cirúrgica.

Curiosamente, o Brasil virou exportador de “soft skills” para o grupo. Metodologias de treinamento e excelência no atendimento desenvolvidas aqui são aplicadas na Colômbia e na França.

Consolidação inevitável e a meta dos 15%

Com faturamento projetado de R$ 2 bi (crescimento de 18%) e investimentos anuais de R$ 250 a 300 milhões, a Indigo detém apenas 15% de um mercado extremamente pulverizado. Piovesan prevê que a reforma tributária e a trabalhista acelerarão a concentração.

Pequenos operadores locais tendem a perder espaço para quem tem estrutura de compliance, tecnologia e capital para absorver os novos custos trabalhistas.

O estacionamento do futuro: hub de drones e e-bikes

Daqui a dez anos, Piovesan vê os pátios como centros de mobilidade multimodal. A lógica: o cliente dirige até o estacionamento periférico e completa a viagem com bicicletas elétricas, patinetes ou até drones de passageiros.

“Mais eficiente, mais barato, mais ESG”, resume o executivo. A infraestrutura já existe; falta a regulação do espaço aéreo urbano e a maturidade dos veículos autônomos.

O que observar nos próximos trimestres

Três variáveis ditarão se a meta de R$ 2 bi é realista: a velocidade da regulamentação do fim da 6×1 (impacto direto na folha hospitalar), a trajetória da Selic (custo de capital para novas concessões) e a capacidade de integrar tecnologia sem matar o diferencial de atendimento humano. O mercado pulverizado é o playground — mas apenas para quem tiver fôlego financeiro e gestão de gente impecável.