Justiça

Flávio Bolsonaro foge aos EUA e solta carta golpista; Tarcísio e PL viram as costas

Flávio Bolsonaro embarcando em voo para os EUA com passaporte na mão
Senador deixa o Brasil às pressas após divulgar manifesto golpista contestando resultado das urnas

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos na madrugada de 28 de outubro e, horas depois, divulgou um manifesto em que se autodeclarava “presidente eleito dos Estados Unidos do Brazil” — com “z” no brasão oficial. O documento classificava o resultado das urnas como “tirania” e “regime de exceção”. A reação imediata de aliados estratégicos expôs o isolamento do movimento.

O gesto que selou o afastamento do clã

Flávio embarcou em voo comercial usando passaporte italiano, evitando o controle migratório brasileiro na fronteira com a Argentina. A fuga antecedeu a publicação da carta, que trazia comparações com Charles de Gaulle e insinuações de intervenção externa. O texto foi alterado horas depois: o título de “presidente eleito” deu lugar a “líder do Brasil”, e o brasão com “Brazil” foi corrigido.

O senador Rogério Marinho (PL), coordenador da campanha, minimizou o episódio em coletiva: atribuiu o teor a “choque da derrota” e “desabafo”. O Partido Liberal não endossou as acusações de fraude eleitoral. União Brasil, PSD e MDB divulgaram notas atestando a regularidade do pleito.

Tarcísio quebra a fileira e dita o tom do pós-eleição

O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), foi o primeiro peso-pesado a se afastar. No dia da divulgação da carta, afirmou: “A eleição acabou e agora é preciso olhar para a frente. Entendo o sentimento de Flávio, sua indignação e revolta, mas o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente”.

A nota, enviada diretamente à Folha, sinaliza a estratégia do campo de centro-direita: manter a base eleitoral bolsonarista sem embarcar em aventuras institucionais. Tarcísio evitou confrontar a família, mas recusou-se a assinar embaixo do discurso golpista.

As forças que ainda não se pronunciaram

Restam interrogações sobre o posicionamento de blocos que sustentaram a coalizão nos últimos quatro anos:

  • Evangelismo político de direita — lideranças de assembleias e batistas ainda silenciosas;
  • Agronegócio — entidades de classe evitaram manifestações públicas até o momento;
  • Setor financeiro — bancos e gestoras mantêm postura de “aguardar a transição”;
  • Alto-comando das Forças Armadas — nenhum comandante emitiu nota oficial;
  • Deputados influenciadores do PL — maioria replicou discursos de “luta” nas redes, sem citar a carta nominalmente.

O fator Trump e a variável Rubio

Donald Trump, em terceira manifestação sobre o pleito brasileiro, afirmou que “não vai se envolver na carta ao nojo brasileiro de Flávio Bolsonaro”, mas repetiu a tese de fraude — desta vez em tom mais brando. A retórica serve à narrativa interna dos EUA, onde o ex-presidente disputa a eleição de 3 de novembro.

Marco Rubio, secretário de Estado e pré-candidato republicano, é conhecido por linha dura contra governos de esquerda na América Latina. A derrota da extrema direita brasileira pode entrar na pauta dele nas próximas semanas, embora a prioridade imediata seja a eleição americana. Sanções ou pressões diplomáticas não estão descartadas, mas dependem do resultado de 5 de novembro.

O que observar nas próximas semanas

Três variáveis definirão se o episódio permanece como factoide ou ganha tração institucional: (1) adesão ou silêncio das cúpulas militares; (2) manifestação formal do agronegócio e do setor financeiro sobre a transição; (3) desfecho da eleição americana e seu reflexo na política externa de Washington para a América do Sul. Até lá, o custo político da carta recai integralmente sobre o autor — e sobre quem decidir não se descolar dele.