Economia

O segredo do ajuste fiscal: por que 4% do PIB assustam o mercado

Gráfico de barras mostra dívida pública brasileira subindo de 72% para 83% do PIB até 2026
Projeção fiscal aponta dívida bruta próxima de 83% do PIB em 2026 sem ajuste estrutural

O próximo presidente tem uma única saída para evitar a crise: recompor o tripé macroeconômico quebrando promessas de campanha. O custo político será alto, mas a conta da inação é impagável.

O pilar fiscal ruiu. O gasto primário saltou de 17,8% do PIB (2021-22) para 19,6% em 2023, empurrando a dívida bruta de 72% para quase 83% do PIB em 2026. Estabilizar essa trajetória exige um aperto de 4% do PIB — valor considerado inviável no curto prazo.

O time econômico não resolve sozinho

Ministro da Fazenda com discurso ortodoxo, Banco Central independente e articulação no Congresso não bastam. Sem o aval explícito do Palácio do Planalto, a credibilidade da equipe evapora na primeira votação difícil. O “adulto na sala” precisa ser o chefe do Executivo.

Medidas recentes agravaram o desequilíbrio em vez de corrigi-lo. Transferir ao BC o papel de fiador da estabilidade é um erro: juros altos controlam inflação, mas não criam espaço fiscal. Com taxas globais elevadas, a margem para erro doméstico inexiste.

O que um ajuste crível exige na prática

Contingenciamentos e aumento de receita são curativos, não cirurgia. O corte precisa ser estrutural e permanente na velocidade do gasto. A lista do que deve entrar na mesa é dura:

  • Revisão de indexações e vinculações orçamentárias;
  • Recalibragem de benefícios sociais e subsídios tributários;
  • Nova reforma da Previdência, incluindo regras do MEI;
  • Fim da regra de reajuste do salário mínimo que pressiona aposentadorias.

O risco invisível: insegurança jurídica

Há um entrave tão letal quanto o fiscal: a desconfiança nas instituições. Insegurança jurídica afugenta investimento, encarece crédito e destrói previsibilidade. A reforma do Judiciário — com foco em transparência, eficiência e separação de Poderes — deixou de ser pauta corporativa para virar condição de sobrevivência econômica.

O que observar daqui para frente

Discursos de responsabilidade não pagam dívida. O sinal definitivo virá da disposição do presidente em gastar capital político para aprovar reformas impopulares. Se a escolha for “mais do mesmo”, a crise deixa de ser risco e vira cronograma. O ajuste virá de qualquer forma: ou negociado agora, ou imposto pelo mercado depois — de forma desordenada e muito mais dolorosa.