Economia

Lucro da Ambev cai 10%, mas esta linha cresceu 157% no trimestre

Logotipo da Ambev com garrafas de cerveja e gráfico de alta de 157% em linha de negócios no 3º trimestre de 2026
Ambev: lucro cai 10%, mas categoria premium dispara 157% no 3T26

A Ambev lucrou R$ 4,4 bilhões no terceiro trimestre de 2026, recuo de 10% ante o ano anterior, efeito de benefícios fiscais não recorrentes que turbinaram 2025. Tirado esse ruído contábil, a operação mostrou fôlego: receita orgânica e Ebitda ajustado avançaram perto de 8%.

O número que chama a atenção, porém, não está no resultado final. Esconde-se na mudança radical do que o brasileiro tem colocado no copo.

O “buraco” no lucro líquido tem explicação simples

A queda de R$ 4,9 bi para R$ 4,4 bi assusta à primeira vista. A companhia foi direta: a base de comparação de 2025 incluía ganhos tributários extraordinários, ligados principalmente à venda da operação em Barbados.

Sem esses efeitos, o lucro operacional segue trajetória de alta. A receita líquida orgânica subiu 7,6%, enquanto o Ebitda ajustado cresceu 8,9%, com expansão de 0,4 ponto percentual na margem. No acumulado de nove meses, o lucro ajustado por ação saltou 12,3%.

Guilherme Fleury resume: crescer acima da inflação investindo

O CFO destacou que a empresa encerrou setembro com receita crescendo acima da inflação pelo nono mês consecutivo. O detalhe estratégico: investimento em marketing subiu dois dígitos no trimestre e no ano.

Ou seja, a Ambev não está apenas “cortando custo” para entregar margem. Está comprando participação de mente e de geladeira.

O motor oculto: premium e “wellness” disparam

No Brasil, o volume total de cerveja cresceu 4% no trimestre (dados Nielsen). A Ambev surfou essa onda com um portfólio específico: o segmento premium avançou 19%.

Dentro desse guarda-chuva, a categoria batizada de wellness — sem glúten, baixa caloria, baixo teor alcoólico ou zero álcool — explodiu 157% em volume. Veja os destaques:

  • Michelob Ultra (baixa caloria, patrocinadora da Copa 2026): +478%
  • Stella Pure Gold (sem glúten): +195%
  • Cervejas sem álcool (categoria à parte): +43%

A empresa posiciona cada rótulo para uma ocasião: Corona (ar livre), Spaten (tradição alemã), Original (cultura de bar), Stella Artois (gastronomia). A fragmentação do portfólio deixa de ser despesa e vira defesa de market share.

Plataformas digitais: BEES rouba a cena

O GMV (volume bruto de vendas) do Zé Delivery cresceu 16%, número saudável para um app maduro. O show, contudo, ficou por conta do BEES, marketplace B2B para bares e mercados: +83%.

Esse salto sugere duas coisas: adesão acelerada do varejo tradicional ao digital e ganho de eficiência logística da Ambev. Quem controla a prateleira e o pedido digital controla o dado de consumo em tempo real.

O que observar daqui para a frente

O trimestre mostrou que a tese de “premiumização + saúde + digital” saiu do PowerPoint para o balanço. Dois sinais merecem monitoramento:

  • Se a expansão de margem (0,4 pp) se sustenta com marketing em alta e pressão de commodities.
  • Se o crescimento do BEES migra de “ganho de adoção” para “ganho de share de carteira” dos clientes B2B.
  • O lucro contábil caiu, mas a tese de investimento ganhou musculatura. Para quem olha fluxo de caixa e posição competitiva, o trimestre foi de avanço, não de recuo.