Internacional

Trump abre as portas para Flávio Bolsonaro: Democratas denunciam “dois pesos, duas medidas”

Trump e Flávio Bolsonaro apertam as mãos na Casa Branca após concessão de visto
Trump recebe Flávio Bolsonaro nos EUA dias após derrota eleitoral no Brasil, gerando críticas de democratas.

O governo Donald Trump concedeu visto de entrada ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e sua família, poucos dias após a derrota do parlamentar na eleição presidencial brasileira. A decisão provocou reação imediata de democratas no Congresso dos Estados Unidos, que acusam a Casa Branca de aplicar critérios seletivos na política migratória.

O comparativo que expõe a contradição

O Comitê de Relações Exteriores da Câmara, controlado por democratas, publicou no X uma crítica direta: enquanto pessoas que fogem da guerra no Sudão e da crise no Haiti têm asilo negado, o secretário de Estado Marco Rubio “estende o tapete vermelho” para um político brasileiro investigado por corrupção.

“Aparentemente, fugir da violência não qualifica o migrante a entrar nos Estados Unidos. Negar resultados eleitorais, sim”, diz o texto do comitê, referindo-se à recusa de Flávio em aceitar o resultado das urnas.

Joaquin Castro vai além: “Perder eleição não é motivo para asilo”

O deputado federal Joaquin Castro (Democrata-TX) usou o Instagram para classificar a concessão do visto como “refúgio” e exigir explicações do governo Trump ao Congresso americano. Segundo Castro, Flávio está sob investigação no Brasil por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção — e teve passaportes retidos por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF).

“O governo Trump deve explicações por seu papel em ajudar Bolsonaro a fugir do Brasil, violando a legislação brasileira”, escreveu o parlamentar.

A fuga: rota Argentina–Equador–Miami

Flávio, a esposa e as duas filhas chegaram a Miami na quarta-feira (28), após cruzarem a fronteira terrestre com a Argentina e embarcarem em voo privado com escala no Equador. A movimentação ocorreu um dia depois de aliados confirmarem à Reuters que o senador havia deixado o país.

O prazo para entrega dos passaportes à Polícia Federal, determinado pelo ministro Alexandre de Moraes, venceu na terça-feira (27). Flávio não compareceu.

O que motivou a retenção dos documentos

A medida faz parte de inquérito que apura lavagem de dinheiro envolvendo Flávio e o advogado Willer Tomaz, amigo do senador. Ambos negam irregularidades. A ordem de Moraes veio após declaração pública de Eduardo Bolsonaro, irmão do senador, sugerindo que Flávio deveria deixar o Brasil caso perdesse a eleição e liderar a oposição do exterior.

  • Derrota nas urnas: 4,4 milhões de votos de diferença para Lula no 2º turno (26/10)
  • Intimação do STF: entrega de passaportes até 27/10
  • Chegada a Miami: 28/10, via voo privado com escala no Equador
  • Investigação em curso: lavagem de dinheiro e evasão de divisas

O vídeo de 24 horas antes: “Vou ficar no Brasil”

Na véspera da fuga, Flávio publicou vídeo nas redes sociais garantindo que permaneceria no país para “organizar a oposição” ao governo Lula. A promessa durou menos de um dia. A mudança abrupta de narrativa reforça a percepção de que a saída foi planejada com antecedência, possivelmente com conhecimento de autoridades americanas.

PF abre investigação sobre as circunstâncias da saída

A Polícia Federal já apura como o senador conseguiu deixar o território nacional com passaportes retidos judicialmente. A hipótese de uso de documento de viagem provisório ou rota alternativa pela fronteira seca com a Argentina está sob análise. O caso pode configurar descumprimento de medida cautelar e obstrução de justiça.

O que observar daqui pra frente

A concessão do visto pelo Departamento de Estado — e não um asilo formal — levanta dúvidas sobre a base legal utilizada. Se confirmado que o visto foi emitido sob categoria diplomática ou de “interesse nacional”, o precedente pode ser invocado por outros políticos investigados que buscam refúgio nos EUA. Enquanto isso, a pressão democrata por audiências no Congresso americano tende a crescer nas próximas semanas, especialmente se houver indícios de coordenação prévia entre a equipe de Trump e o entorno bolsonarista.