Investidores estrangeiros sacaram R$ 2,8 bilhões da B3 na segunda-feira (26), logo após a confirmação da vitória de Lula no segundo turno. O volume só não superou a saída de R$ 2,9 bilhões registrada na sexta-feira anterior — a maior desde agosto.
Mas o que parece pânico à primeira vista esconde uma lógica fria: o desmonte de uma aposta que não se confirmou. Entenda o que moveu o capital e o que vem pela frente.
O “trade eleitoral” desfeito às pressas
Na sexta-feira, véspera da votação, o fluxo já era negativo em R$ 2,9 bi. Segundo Marcos Praça, da Zero Markets Brasil, o movimento reflete a redução deliberada de posições por parte de fundos internacionais que não queriam carregar risco durante a apuração.
“Identifico um desmonte do trade eleitoral. O investidor estrangeiro optou por não se expor pela incerteza”, resume Praça. Na segunda, a saída prosseguiu porque o cenário de alternância de poder — precificado nas semanas anteriores — não se materializou.
Dados que colocam o episódio em perspectiva
Apesar dos dois dias de sangria, o saldo mensal e anual segue no azul. Veja os números da B3:
- Outubro (até o momento): entrada líquida de R$ 13,3 bilhões
- Acumulado em 2026: saldo positivo de R$ 45,4 bilhões
- Pós-primeiro turno: aportes de R$ 10,6 bi em um único pregão
Ou seja: a retirada recente devolve apenas uma fração do que entrou nos meses anteriores. O mercado não está saindo do Brasil; está reposicionando apostas.
O efeito dominó nos ativos de risco
A reação não ficou restrita às ações. No mesmo pregão, o Ibovespa despencou 13,88%, fechando aos 176.608 pontos — a maior queda diária desde março de 2020. A B3 precisou acionar o circuit breaker para conter a liquidação.
O dólar, por sua vez, registrou a maior valorização diária desde 1999. Os juros futuros saltaram mais de 250 pontos-base, sinalizando que o mercado passou a cobrar prêmio de risco mais alto para financiar o governo.
Por que o fiscal virou o centro das atenções
A vitória de Lula reacendeu o temor de que o novo governo mantenha uma política fiscal expansionista, sem o ajuste rigoroso que parte do mercado esperava com a chapa adversária. Taxas mais altas encarecem crédito, comprimem lucros corporativos e pressionam a Bolsa.
Grandes casas já ajustaram recomendações:
- J.P. Morgan: rebaixou real e títulos públicos de overweight para marketweight
- Citi: reduziu exposição recomendada a ações brasileiras
- BCA Research: cortou avaliação do Brasil frente a pares emergentes
O que observar daqui para frente
Felipe Cima, da Manchester Investimentos, resume o cenário: “As movimentações devem seguir com bastante amplitude nos próximos dias. O mercado continua no limbo enquanto espera a definição da equipe econômica”.
Três variáveis vão ditar o ritmo nas próximas semanas: anúncio do ministro da Fazenda, sinalizações sobre a âncora fiscal e a primeira comunicação do Banco Central sob o novo governo. Quem acompanha fluxo de estrangeiro deve monitorar se os R$ 45 bi de saldo anual resistem ou se a reversão se aprofunda. A resposta virá nos dados diários da B3 — e na composição do primeiro escalão.
