Economia

A executiva que saiu da Meta para liderar o Mover: o que muda agora…

Mafoane Odara, nova líder do Mover, em retrato profissional simbolizando transição na equidade racial corporativa
Mafoane Odara assume presidência do Mover em 2025 para tornar equidade racial prioridade estratégica nas grandes empresas.

A executiva de RH Mafoane Odara assume o comando do Mover (Movimento pela Equidade Racial) em 1º de janeiro, sucedendo Natália Paiva após dois anos de gestão. A transição começa nesta quarta-feira (28) e promete reposicionar a agenda racial como prioridade estratégica — e não apenas social — dentro das maiores corporações do país.

Mas por que uma líder com passagens por Meta, Zamp (dona do Burger King e Popeyes) e Instituto Avon aceitou o desafio? A resposta está no tamanho da ambição: transformar metas de diversidade em resultados financeiros mensuráveis.

O perfil que o momento exige

Formada em psicologia, Odara construiu carreira em cadeiras estratégicas de recursos humanos. No Instituto Avon, coordenou a fundação da Coalizão Empresarial pelo Fim da Violência Contra Mulheres e Meninas, em 2019. Na Meta e na Zamp, atuou na ponta da gestão de pessoas em operações globais e de varejo de alta escala.

Foi exatamente essa bagagem que atraiu o conselho do Mover — composto por CEOs das associadas. A busca durou meses e partiu da própria Natália Paiva, que apresentou a proposta de sucessão em abril.

  • Meta: liderança de RH em ambiente global de tecnologia
  • Zamp: gestão de pessoas em rede de fast food com milhares de funcionários
  • Instituto Avon: articulação de coalizão interempresarial de impacto social

A tese: equidade racial como alavanca de negócio

“O Mover chega em seus cinco anos com o desafio de transformar metas ambiciosas em impactos duradouros dentro das empresas e transformação para os negócios”, afirmou Odara à coluna. Sua premissa central: a equidade racial não é pauta exclusiva de pessoas negras — é pauta econômica.

Essa mudança de narrativa mira o bolso dos acionistas. Estudos recentes mostram que empresas com lideranças diversas superam pares em inovação e rentabilidade. O Mover quer traduzir esse dado em linguagem de board.

O efeito mais relevante aparece na ponta da execução.

Metas concretas para os próximos ciclos

Odara desenhou três frentes de atuação imediata junto às 60 empresas associadas — lista que inclui Amazon, Ambev, Bayer, BNDES, Coca-Cola, Disney, L’Oréal, Heineken, Magalu, Mastercard e Nestlé:

  • Ampliar representatividade de pessoas pretas e pardas em posições de liderança
  • Acelerar oportunidades de emprego e desenvolvimento de carreira
  • Fortalecer o engajamento do setor privado na agenda de equidade racial

Não são promessas vagas. O movimento já contabiliza 1,2 milhão de oportunidades profissionais criadas em três anos — entre bolsas de idiomas, pós-graduação e vagas efetivas. A meta declarada: 3 milhões até 2030.

O legado da gestão anterior e o que vem por aí

Natália Paiva deixa a direção em momento de “amadurecimento institucional”, segundo suas palavras. Além do volume de oportunidades, seu mandato trouxe 25 novas associadas. Também houve saídas: organizações que entraram no debate mas não tinham maturidade para sustentar o compromisso.

“Vão ter altos e baixos, mas a agenda da diversidade e equidade racial no Brasil se mostrou resiliente”, avalia Paiva. Ela segue à frente da Alandar, consultoria própria de gestão empresarial, relações governamentais e comunicação estratégica — negócio que fundou pouco antes de assumir o Mover e que cresceu nos últimos anos.

A própria transição de Paiva é, nas palavras dela, uma materialização do sonho do movimento: ver mulheres negras comandando organizações e direcionando debates públicos.

O que observar daqui pra frente

Três sinais indicarão se a nova gestão consegue mover o ponteiro:

  • Taxa de conversão: quantas das oportunidades geradas viram promoções reais para cargos de decisão
  • Retenção de associadas: se o número de 60 empresas cresce ou estagna nos próximos 12 meses
  • Métricas de negócio: se o Mover consegue publicar casos de empresas que ligaram diversidade a crescimento de receita ou redução de custos

Para investidores e conselheiros, o recado é claro: a agenda racial deixou o departamento de responsabilidade social e migrou para a mesa de estratégia. Quem não estiver atento à execução desse movimento pode perder mais do que reputação.