Justiça

Você não vai acreditar nas falhas da operação mais letal do Rio

Relatório da Human Rights Watch sobre falhas na investigação da Operação Contenção, Rio, 122 mortos
HRW expõe falhas sistêmicas na apuração da operação policial mais letal da história do Rio.

Um relatório da Human Rights Watch (HRW) expõe falhas sistêmicas na investigação da Operação Contenção, a ação policial mais letal da história do Rio de Janeiro, com 122 mortos. O documento revela que cadeia de custódia, perícia e tecnologia de monitoramento falharam em série. Para quem avalia risco institucional no Brasil, o caso acende um alerta vermelho sobre a capacidade do Estado de garantir due process.

Divulgado nesta quarta-feira (28), o estudo disseca 9 mil páginas de inquéritos, 122 laudos de necropsia e 4,4 mil horas de imagens de câmeras corporais. A conclusão é direta: não há investigação eficaz sem preservação de prova. E a prova, neste caso, foi comprometida desde o primeiro minuto.

O colapso da cadeia de custódia

A HRW aponta que o Departamento Geral de Homicídios soube da operação uma semana antes, mas não preparou equipes de perícia. No dia, peritos ficaram aquartelados na Cidade da Polícia, a poucos quilômetros dos complexos da Penha e do Alemão, e nunca foram acionados para os locais dos fatos.

O resultado é uma lista de violações procedimentais que invalidam a reconstrução dos fatos:

  • Corpos removidos sem perícia: 33 corpos levados pela PM e 62 transportados por moradores à Praça São Lucas, expostos ao tempo até a decomposição dificultar necropsias.
  • Locais não preservados: Nem interiores de residências nem a área da estação de trem — fora do conflito direto — foram isolados.
  • Armas contaminadas: 118 armas apreendidas exibidas em coletiva de imprensa sem lacre, manuseadas por policiais e repórteres sem luvas, destruindo impressões digitais e vestígios balísticos.

Para o setor privado, o paralelo é imediato: uma falha de compliance e governança nessa escala, em qualquer corporação, resultaria em multas, perda de licenças e danos reputacionais irreversíveis.

Tecnologia comprada, mas não usada

O fracasso das câmeras corporais é um capítulo à parte. Apenas 23% dos 2,5 mil agentes envolvidos portavam o equipamento. Das 305 câmeras de policiais de linha de frente analisadas, a média de gravação foi de 6 horas e 38 minutos — metade da autonomia contratada de 12 horas.

O protocolo da PM exige baterias extras para operações longas. Não foram levadas. A partir do meio-dia, 55% dos equipamentos apresentaram interrupções ou lacunas graves justamente no pico de letalidade. Imagens mostram policiais tapando lentes, virando câmeras para a parede ou deixando-as dentro de viaturas antes de incursões a pé.

Dado crítico: Nenhuma das 117 mortes de não policiais foi registrada. Em um ambiente de negócios, isso equivaleria a um sistema de auditoria que desliga sozinho no momento da fraude.

Padrão balístico levanta hipótese de execução

A análise dos 117 laudos de não policiais revela um padrão incompatível com o confronto alegado:

  • 60% das vítimas receberam quatro ou mais tiros; 7 casos superaram dez disparos.
  • 71% apresentavam ferimentos de entrada em dois lados do corpo; 34% em três lados.
  • 12% foram atingidas exclusivamente nas costas; 85 tinham ao menos um tiro na região posterior.
  • 50 vítimas baleadas na cabeça, incluindo um adolescente de 14 anos com seis tiros (três frontais, três dorsais).
  • Um homem recebeu seis tiros a queima-roupa (menos de 60 cm).

Em contrapartida, dos cinco policiais mortos, quatro tiveram ferimento único. A discrepância estatística é brutal e sugere uso desproporcional da força, o que expande o passivo judicial do Estado para indenizações cíveis e sanções internacionais.

O que observar daqui para frente

A Secretaria de Segurança Pública informa 242 depoimentos colhidos e 553 laudos periciais produzidos em 12 meses, com 105 exames pendentes, sob monitoramento do GAESP/MPRJ. Mas a HRW classifica o andamento como “sem qualquer conclusão”.

Três variáveis definem o cenário para os próximos trimestres:

  1. Judicialização em massa: Ações civis públicas e individuais devem pressionar o orçamento estadual com condenações por danos morais e materiais.
  2. Pressão por reforma na PM: O uso indevido de câmeras corporais forçará discussão sobre governança de tecnologia, contratos de manutenção e protocolo de acionamento remoto.
  3. Rating ESG subnacional: Agências de risco e fundos de investimento com mandatos de direitos humanos passarão a precificar o “risco Rio” com maior rigor, afetando custo de dívida e atratividade de concessões.

O relatório não é apenas um documento de direitos humanos; é um atestado de falha de gestão de ativos, pessoas e processos em escala letal. Quem opera ou investe no território fluminense precisa precificar a probabilidade de que a impunidade estrutural gere instabilidade social e custos ocultos nos próximos balanços.