O contrato de dezembro do trigo em Chicago caiu para US$ 6,10 o bushel, bem abaixo dos US$ 7,04 registrados dias atrás. No Brasil, porém, a tonelada segue estável em R$ 1.564 no Paraná, e o consumidor continua pagando mais caro pelo pão.
Essa divergência entre o campo e a gôndola expõe uma fragilidade estrutural que vai muito além da cotação do dia. Entender os movimentos globais é essencial para projetar os custos dos próximos meses.
A surpresa argentina que aliviou Chicago
A queda internacional tem endereço certo: a Argentina revisou sua safra para cima. A expectativa agora gira em torno de 24 milhões de toneladas, volume bem superior aos 21 milhões projetados inicialmente e próximo do recorde do ano passado.
Esse alívio na oferta sul-americana contrabalanceou as más notícias do Hemisfério Norte. A União Europeia, castigada pelo clima, reduziu a estimativa para 124 milhões de toneladas, limitando seu potencial de exportação a 29 milhões.
O mapa da oferta global: entre safras menores e logística travada
O cenário internacional permanece apertado, apesar do recuo recente nos futuros. A Austrália colhe 29,9 milhões de toneladas, queda de 17% ante o ciclo anterior. Já o Canadá produziu 36 milhões — 11% a menos que em 2025, embora ainda acima da média de cinco anos.
- Rússia e Ucrânia: volumes estáveis, mas escoamento dificultado pelo conflito.
- Produção mundial (USDA): 822 milhões de toneladas em 2026/27, contra 844 milhões no ciclo anterior.
Com estoques globais mais magros, qualquer susto climático ou logístico pode reverter a tendência de baixa nas cotações rapidamente.
Brasil: déficit histórico força importação recorde
O quadro interno é o mais preocupante dos últimos tempos. A produção nacional estima-se em apenas 5,7 milhões de toneladas, diante de um consumo anual de 12 milhões.
O buraco de 6,3 milhões de toneladas obriga o país a importar pelo menos 7,1 milhões, segundo a Conab. Trata-se de uma das maiores compras externas da história, justamente quando o real desvalorizado encarece o produto lá fora.
O repasse que não chega à padaria
Enquanto o atacado dá sinais de arrefecimento, o varejo mantém a pressão. Nos últimos quatro semanas, o pão subiu 1,15% em São Paulo, acumulando 2,7% no ano, segundo a Fipe.
Esse descolamento é típico: moinhos e indústrias trabalham com estoques formados a preços maiores e contratos de câmbio travados. A queda do bushel em Chicago, se sustentada, deve demorar semanas — ou meses — para aliviar a inflação do café da manhã.
Exportações: trigo some, soja bate recorde, milho recua
A balança comercial agrícola mostra realidades opostas. O Brasil embarcou apenas 970 mil toneladas de trigo este ano, contra 2,3 milhões em todo 2025.
Em compensação, a soja caminha para fechar os dez primeiros meses com 108 milhões de toneladas exportadas — ritmo recorde. O milho, por sua vez, somou 26 milhões até outubro, bem aquém dos 42 milhões do ano passado.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o próximo capítulo: o ritmo de embarques argentinos, a taxa de câmbio no Brasil e a definição da safra de inverno no Hemisfério Norte. Se o dólar seguir pressionado e a logística do Mar Negro travar, a janela de baixa em Chicago pode se fechar antes de chegar ao bolso do consumidor brasileiro.
