A executiva de RH Mafoane Odara assume o comando do Mover (Movimento pela Equidade Racial) em 1º de janeiro, sucedendo Natália Paiva após dois anos de gestão. A transição começa nesta quarta-feira (28) e promete reposicionar a agenda racial como prioridade estratégica — e não apenas social — dentro das maiores corporações do país.
Mas por que uma líder com passagens por Meta, Zamp (dona do Burger King e Popeyes) e Instituto Avon aceitou o desafio? A resposta está no tamanho da ambição: transformar metas de diversidade em resultados financeiros mensuráveis.
O perfil que o momento exige
Formada em psicologia, Odara construiu carreira em cadeiras estratégicas de recursos humanos. No Instituto Avon, coordenou a fundação da Coalizão Empresarial pelo Fim da Violência Contra Mulheres e Meninas, em 2019. Na Meta e na Zamp, atuou na ponta da gestão de pessoas em operações globais e de varejo de alta escala.
Foi exatamente essa bagagem que atraiu o conselho do Mover — composto por CEOs das associadas. A busca durou meses e partiu da própria Natália Paiva, que apresentou a proposta de sucessão em abril.
- Meta: liderança de RH em ambiente global de tecnologia
- Zamp: gestão de pessoas em rede de fast food com milhares de funcionários
- Instituto Avon: articulação de coalizão interempresarial de impacto social
A tese: equidade racial como alavanca de negócio
“O Mover chega em seus cinco anos com o desafio de transformar metas ambiciosas em impactos duradouros dentro das empresas e transformação para os negócios”, afirmou Odara à coluna. Sua premissa central: a equidade racial não é pauta exclusiva de pessoas negras — é pauta econômica.
Essa mudança de narrativa mira o bolso dos acionistas. Estudos recentes mostram que empresas com lideranças diversas superam pares em inovação e rentabilidade. O Mover quer traduzir esse dado em linguagem de board.
O efeito mais relevante aparece na ponta da execução.
Metas concretas para os próximos ciclos
Odara desenhou três frentes de atuação imediata junto às 60 empresas associadas — lista que inclui Amazon, Ambev, Bayer, BNDES, Coca-Cola, Disney, L’Oréal, Heineken, Magalu, Mastercard e Nestlé:
- Ampliar representatividade de pessoas pretas e pardas em posições de liderança
- Acelerar oportunidades de emprego e desenvolvimento de carreira
- Fortalecer o engajamento do setor privado na agenda de equidade racial
Não são promessas vagas. O movimento já contabiliza 1,2 milhão de oportunidades profissionais criadas em três anos — entre bolsas de idiomas, pós-graduação e vagas efetivas. A meta declarada: 3 milhões até 2030.
O legado da gestão anterior e o que vem por aí
Natália Paiva deixa a direção em momento de “amadurecimento institucional”, segundo suas palavras. Além do volume de oportunidades, seu mandato trouxe 25 novas associadas. Também houve saídas: organizações que entraram no debate mas não tinham maturidade para sustentar o compromisso.
“Vão ter altos e baixos, mas a agenda da diversidade e equidade racial no Brasil se mostrou resiliente”, avalia Paiva. Ela segue à frente da Alandar, consultoria própria de gestão empresarial, relações governamentais e comunicação estratégica — negócio que fundou pouco antes de assumir o Mover e que cresceu nos últimos anos.
A própria transição de Paiva é, nas palavras dela, uma materialização do sonho do movimento: ver mulheres negras comandando organizações e direcionando debates públicos.
O que observar daqui pra frente
Três sinais indicarão se a nova gestão consegue mover o ponteiro:
- Taxa de conversão: quantas das oportunidades geradas viram promoções reais para cargos de decisão
- Retenção de associadas: se o número de 60 empresas cresce ou estagna nos próximos 12 meses
- Métricas de negócio: se o Mover consegue publicar casos de empresas que ligaram diversidade a crescimento de receita ou redução de custos
Para investidores e conselheiros, o recado é claro: a agenda racial deixou o departamento de responsabilidade social e migrou para a mesa de estratégia. Quem não estiver atento à execução desse movimento pode perder mais do que reputação.
