Economia

Unilever: reajustes vão acelerar e 2025 promete ser mais caro

Produtos Unilever em prateleira de supermercado com etiquetas de preço em destaque
Unilever acelera reajustes de preços para 2025 repassando custos geopolíticos ao consumidor

A Unilever confirmou que os reajustes de preços ganharão força no quarto trimestre e no próximo ano, repassando ao consumidor a escalada de custos provocada pelo conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. A medida alinha a gigante de bens de consumo a rivais como Coca-Cola, P&G, Nestlé e Reckitt, que já sinalizaram movimento idêntico. A grande incógnita agora é se o bolso do cliente vai absorver nova rodada de altas sem migrar em massa para marcas próprias do varejo.

O gatilho da vez: custos de commodities e logística

O presidente-executivo Fernando Fernandez foi direto ao ponto: a expectativa é que os aumentos de 2027 superem a média praticada em 2026. “Agora que temos mais clareza sobre o cenário de custos, estamos acelerando os reajustes”, afirmou. A pressão vem de matérias-primas, energia e frete — itens que a guerra no Oriente Médio tornou mais voláteis e caros.

Diferente de ciclos anteriores, a empresa diz ter conseguido repassar parte da inflação neste ano sem sacrificar volumes. O gestor Jack Martin, da Oberon Investments, resume o alívio do mercado: a capacidade de subir preço sem derrubar venda é a marca registrada de uma “empresa de essenciais bem administrada”.

O balanço do terceiro trimestre em números

Os resultados divulgados nesta quarta-feira (28) mostram resiliência, mas acendem alertas setoriais. Confira os pilares da performance:

  • Vendas subjacentes: alta de 5,2% (consenso era 4,8%).
  • Volume: cresceu 2,9% no trimestre.
  • Preço: subiu 2,3% no mesmo período.
  • Guidance 2024 mantido: volume anual acima de 3% e vendas no 2º semestre perto de 5%.

Apesar do topo de linha forte, as ações caíram 3,4% no pregão. O mercado puniu a desaceleração do volume frente ao trimestre anterior, puxada pela divisão de alimentos — justamente o segmento que a gestão tenta separar.

A aposta na separação do negócio de alimentos

Sob o comando de Fernandez, a Unilever caminha para combinar sua operação de alimentos com a americana McCormick. A lógica é simples: beleza e cuidados pessoais crescem mais e entregam margens superiores. Para o analista James Edwardes Jones, do RBC, o negócio de alimentos ainda “prejudica o desempenho do grupo”, mesmo com o trimestre considerado bom no agregado.

Essa reorganização é vista como essencial para destravar valor ao acionista, mas a execução carrega riscos de distração gerencial justamente num momento de pressão de custos.

O cenário setorial: todo mundo no mesmo barco

A Unilever não está sozinha. Na semana passada, P&G e Nestlé também superaram estimativas de vendas graças ao volume, mas a P&G avisou que matérias-primas, energia e transporte pressionarão o lucro anual. A L’Oréal, por sua vez, entregou números “bem acima” do esperado. O padrão é claro: a demanda segura permite repassar custos hoje, mas a sustentabilidade disso depende da trégua inflacionária.

O que observar daqui para a frente

Três variáveis ditarão o ritmo das ações e das gôndolas nos próximos meses: a elasticidade real da demanda frente aos novos reajustes, a velocidade da cisão do negócio de alimentos e a trajetória das commodities energéticas e agrícolas. Se o volume segurar acima de 3% ao ano com preço subindo, a tese de “repasse sem dor” se confirma. Caso contrário, o fantasma de 2022 — quando consumidores fugiram para marcas privadas — volta a assombrar as projeções.