Gildo Francisco de Sá troca o canteiro de obras pela cozinha de casa todas as noites para transformar memórias em livros. Aos 11 anos, ele já carregava tijolos; hoje, aos 60, carrega três obras publicadas e uma quarta a caminho. O que fez um trabalhador braçal guardar histórias por 30 anos antes de colocá-las no papel?
A infância que virou matéria-prima
Em Cedral, interior de São Paulo, a rotina de Gildo começou cedo. Ajudante de um tio migrante do Norte, ele aprendeu o ofício de pedreiro sob sol e chuva. Em casa, a escassez era constante: a mãe costurava cobertas de retalhos e criava receitas improvisadas — como a “sopa de entulho” e o bolo “quebra-bucha” — para alimentar os filhos.
Mas foi à luz de velas, em noites sem energia elétrica, que a imaginação dele se expandiu. O tio reunia a família para contar lendas do folclore: mula sem cabeça, gente que virava Exu. Histórias que, segundo Gildo, “enchiam a mente de imaginação” enquanto a cera derretia para economizar.
O gatilho que rompeu três décadas de silêncio
A responsabilidade de sustentar a casa calou o escritor por trinta anos. As tramas ficaram guardadas, amadurecendo na memória. A virada veio há três anos, movida pelo medo da perda: “Fiquei com medo de chegar a uma certa idade e perder tudo isso, por isso precisei escrever”, explica.
Desde então, a produção fluiu. Confira os títulos já lançados:
- A Aranha Invejosa — fábula sobre inveja e consequências
- Mãe Coruja — gerou debate divertido com a neta Cecília sobre o desfecho
- Terceira obra infantil (título não divulgado)
Da literatura infantil ao suspense adulto
O quarto livro marca uma guinada: será o primeiro voltado ao público adulto, no gênero suspense. Gildo já tem outros projetos na fila — Leléu, Galo Cacetete, O Boi do Padre e Dona Mariquinha — esperando vez no papel. A transição mostra que a veia criativa não se limita a um único público.
Parceria que sustenta o sonho
Casada há mais de 30 anos, Rosângela Santos de Sá atua como primeira revisora. Ela lê os cadernos manuscritos antes do envio à editora. “Talento ele tem. É um dom que ninguém pode negar. É muito difícil, mas o gosto da vitória vai ser ainda mais saboroso”, diz a esposa.
O objetivo do autor, porém, não é fama nem dinheiro. Ele quer levar os livros às escolas e estimular a leitura entre crianças e netos. “Não vejo como disputa. Para mim, o sonho é compartilhar conhecimento e imaginação com eles”, resume.
O que observar daqui para frente
Aguardar o lançamento do suspense adulto revelará se a narrativa de Gildo conquista também leitores maduros. A parceria com a editora e a receptividade nas escolas serão termômetros do impacto real. Para empreendedores e educadores, o caso ilustra como histórias autênticas, nascidas da vivência, podem virar produto cultural sem perder a raiz. Vale acompanhar a distribuição nas redes de ensino da região e eventuais adaptações para outros formatos.
