A estiagem severa na Amazônia, turbinada pelo El Niño, já obriga gigantes da navegação a descarregar contêineres no meio do rio para não encalhar. A solução emergencial mantém o abastecimento, mas transfere a conta para o modal aéreo, que registrou salto de 6% na demanda só em setembro.
O cenário expõe a fragilidade logística da região e acelera uma corrida por alternativas que misturam engenharia pesada e brechas regulatórias.
A engenharia por trás do transbordo em Itacoatiara
Navios de cabotagem chegam a Itacoatiara (AM) carregados com cerca de 1.400 contêineres de 40 pés — o equivalente a 2.800 TEUs. Ali, precisam transferir 300 unidades para balsas menores em um píer temporário.
O alívio de peso permite que a embarcação principal siga viagem com calado seguro. Atualmente, a profundidade no trecho marca 10,2 metros, bem abaixo dos 11,5 metros padrão em anos chuvosos.
A operação, gerida pelo Grupo Chibatão desde 18 de setembro, roda sete movimentos de guindaste por hora em uma estrutura de 277 metros. A previsão é desmontar tudo na primeira semana de dezembro.
O custo invisível da estiagem para o bolso do armador
Manter a rota funcionando não sai barato. O Grupo Chibatão estima um gasto extra de R$ 80 milhões só com a estrutura temporária.
- Pessoal, alimentação e hospedagem das equipes;
- Combustível e transporte fluvial de apoio;
- Operação contínua de guindastes e balsas.
Produtos da Zona Franca de Manaus — televisores, motocicletas, itens de higiene e grãos — são as principais cargas afetadas pelo gargalo.
Por que o rio Negro assusta menos que em 2023
Apesar do sufoco, o nível do rio Negro marcava 16,97 metros em 21 de outubro. No mesmo dia do ano passado, a régua travava em 12,90 metros — o pior registro em um século.
A diferença de quatro metros não é sorte. Obras de dragagem do Dnit entre Itacoatiara e Manaus garantiram ganho de 1,2 metro na profundidade, amenizando o estrangulamento.
A Antaq intensificou vistorias em Tabatinga, Benjamin Constant e nas travessias Manaus-Careiro e Igapó-Açu, além de autorizar terminais temporários de três operadores para garantir escoamento.
O refúgio no modal aéreo e a brecha regulatória
Com o rio apertado, o aeroporto de Manaus viu a demanda por carga crescer 6% em setembro contra igual mês de 2023. No acumulado do ano, a alta chega a 2%, segundo a Vinci Airports.
Para ampliar a capacidade, a concessionária pediu à Anac autorização para que cargueiros internacionais façam trechos domésticos. Normalmente, um avião vindo de Miami para Manaus teria de voltar vazio aos EUA.
Com a liberação excepcional, a aeronave pode seguir para São Paulo e só então retornar, otimizando a malha e desafogando o rio.
O que observar daqui para frente
A integração forçada entre hidroviário e aéreo deixa de ser plano B para virar estratégia de sobrevivência. Eventos climáticos extremos tendem a se repetir, exigindo contratos de frete mais flexíveis, investimento contínuo em dragagem e marcos regulatórios que permitam agilidade na troca de modais.
Quem depende da logística amazônica deve monitorar dois gatilhos: a velocidade de recomposição do nível dos rios em novembro e a renovação das autorizações da Anac para cabotagem aérea internacional. São eles que ditarão o custo do frete no primeiro trimestre de 2025.
