Uma única vinícola alentejana domina oito regiões portuguesas — do Douro aos Açores — com rótulos que desafiam a lógica de terroir. O enólogo Pedro Ribeiro apresentou em São Paulo oito garrafas que provam: geografia não é destino quando a técnica fala mais alto.
O que parecia impossível virou portfólio. A Herdade do Rocim, nascida no ano 2000 entre Vidigueira e Cuba, hoje assina 35 rótulos só no Alentejo e estende tentáculos por Bairrada, Dão, Lisboa, Vinho Verde, Algarve, Madeira e Açores. A degustação na World Wine revelou como uma mesma mão pode assinar vinhos de perfis radicalmente opostos.
O clarete que divide opiniões — e custa R$ 339
Dr. Bruno não é um enólogo. É um Yorkshire de terno e gravata, criação dos humoristas João Moreira, Pedro Santo e do artista João Pombeiro. O personagem Bruno Aleixo, “50% amado, 50% odiado”, empresta nome e irreverência a um clarete 100% Baga da Bairrada. Taninos suaves, acidez vibrante, vocação gastronômica: carnes brancas, massas ao molho vermelho, queijos — ou nada, se a vontade for só beber.
O rótulo promete: “É super bom — e toda gente a quem dei a provar também achou super bom.” O preço, porém, não brinca: R$ 339. A pergunta que fica: o humor justifica o prêmio?
Alentejo na veia: Alicante Bouschet por R$ 269
Meu favorito da prova nasceu na Vidigueira. O Rocim Alicante Bouschet 2024 entrega o que se espera de um grande alentejano: corpo, estrutura, fruta madura, toque mentolado, acidez no ponto. A uva — rara no mundo por ter cor na película e na polpa — garante concentração natural e longevidade.
Ribeiro revela o segredo: pisa a pé com “parcimônia”. Extração eficiente, mas suave. Resultado: sedosidade que convence até paladares céticos. 80 a 90% dos topos de gama alentejanos hoje carregam Alicante no corte ou sozinhos. Este está entre os que sustentam a estatística.
Algarve: onde a acidez manda no jogo
Quinta da Pedragosa Tinto 2023 muda o cenário. 60% Negra Mole — casta ícone da região de Lagos — mais Aragonez. Cimento para fermentação e estágio inicial, barrica depois. O oposto do Alicante: vertical, seco, “não tão comercial”, nas palavras do enólogo. Frescor salino, acidez de região fria, taninos que prometem evolução. Mesmo preço: R$ 269.
O irmão branco, Quinta da Pedragosa Branco 2024 (Arinto + Malvasia), surpreende pela untuosidade inesperada. Cítrico, tropical, mesma faixa de preço.
Três rótulos, uma origem, perfis distintos
- Rocim Verdelho 2025 — 100% Verdelho, sem carvalho, leveza e frescor puros. R$ 269.
- Rocim Touriga Nacional — A estrela do Douro brilha no Alentejo: morango, cereja, pedra úmida, 8 meses em carvalho francês. R$ 269.
- Bela Luz 2024 (tinto e branco) — Vinhas velhas centenárias, castas não contabilizadas, “perto da perfeição” segundo o próprio enólogo. R$ 498 cada.
Argentina entra em cena na próxima semana
Enquanto Portugal mostra amplitude, a Argentina aposta em altitude. Nos dias 27 e 28 de outubro, São Paulo recebe o Argentina Reloaded, projeto da sommelière Paz Levinson. Mais de 40 rótulos de regiões diversas — incluindo a remota Quebrada de Humahuaca, em Jujuy, extremo norte do país.
Terça (27), no restaurante Cora (Vila Buarque), jantar harmonizado das 20h às 23h. Quarta (28), no “Tão Longe, Tão Perto” (Barra Funda), degustação aberta das 19h às 22h por R$ 50 — taças extras a R$ 15. Oportunidade rara de provar diversidade argentina sem filtros de importador.
O que observar daqui para frente
A estratégia da Rocim — uma marca, múltiplos terroirs, identidade técnica consistente — desafia o dogma de que grande vinho nasce de lugar único. Para investidores e compradores, o sinal está dado: escala e precisão podem conviver. Já o movimento argentino de levar regiões desconhecidas ao mercado brasileiro abre frente nova de diversificação de portfólio. Quem ignorar a Quebrada de Humahuaca hoje pode pagar caro amanhã.
