Economia

O segredo que o mercado ignora: como Lula 4 pode derrubar juros e dívida

Lula discursa com gráficos de dívida pública e juros ao fundo
Lula assume quarto mandato com desafio de reduzir dívida pública de 82,9% do PIB e juros reais elevados.

Luiz Inácio Lula da Silva venceu a eleição e assume o quarto mandato com a faca e o queijo na mão para resolver o maior nó da economia: a dívida pública a 82,9% do PIB e juros reais estratosféricos. O mercado entrou em pânico na semana seguinte ao segundo turno — o dólar saltou quase 9% e os juros longos subiram mais de 2,3 pontos percentuais —, mas a reação esconde um detalhe crucial: o déficit primário já está domado.

A volatilidade atual reflete descrença, não descontrole. A diferença entre o pânico dos agentes financeiros e a realidade das contas públicas é exatamente onde mora a oportunidade de virada. Entender essa assimetria é o primeiro passo para antecipar os próximos movimentos da taxa Selic e do câmbio.

O choque de realidade pós-urna

O otimismo precipitado do primeiro turno deu lugar à correção brusca de posições. Investidores que apostavam em outro cenário foram forçados a recalcular rotas, gerando o estresse cambial e na curva de juros observado nos dias seguintes à vitória.

Essa “ressaca” revela duas forças: a frustração de quem apostou errado e, principalmente, a desconfiança structural sobre a disposição do novo governo em entregar superávits primários consistentes. O mercado, na prática, ainda não “comprou” a tese da responsabilidade fiscal no quarto ciclo petista.

Os números que desmentem o caos

Olhar para a série histórica recente muda a narrativa. Não há descalabro fiscal em curso, mas sim uma transição difícil:

  • 2023: Déficit de 2,4% do PIB (muito influenciado por precatórios herdados e acordos com governadores).
  • 2024: Queda brusca para 0,4% do PIB.
  • 2025/2026: Estabilidade projetada entre 0,4% e 0,5% do PIB.

O problema não é o buraco primário — que é pequeno e estável —, mas a conta de juros que se agigantou. Para estabilizar a dívida, o país precisa voltar a gerar superávits primários. O obstáculo central é a velocidade do gasto público: cresce cerca de 6% ao ano em termos reais, triplicando o ritmo do PIB.

O manual que já funcionou duas vezes

A história oferece o roteiro. Nos dois primeiros mandatos (2003-2010), a média de superávit primário foi de 2,4% e 1,9% do PIB, respectivamente. A dívida/PIB caiu, a composição melhorou drasticamente — eliminando quase toda a dívida externa — e as reservas internacionais saltaram para patamares de segurança invejáveis.

Quando Lula afirma que nenhum outro presidente fez tanto superávit, os dados do Banco Central confirmam. A burocracia do Tesouro, aliás, manteve a excelência na gestão da dívida ao longo de todo o período. A capacidade técnica existe; falta o sinal político claro.

A lista de deveres de casa para o “plano crível”

O anúncio rápido de um programa completo — e não medidas avulsas anuais — é o que separa a credibilidade da especulação. O ajuste deve ser gradual para não causar recessão, mas a sinalização precisa ser imediata. Os pilares técnicos conhecidos incluem:

  • Submissão estrita de todas as despesas ao teto do Arcabouço Fiscal (LC 200/2023);
  • Contenção de supersalários no funcionalismo;
  • Corte agressivo em gastos tributários (isenções e renúncias);
  • Redução do volume de emendas parlamentares;
  • Reforma da previdência militar;
  • Desvinculação do reajuste do salário mínimo da regra previdenciária;
  • Revisão de vinculações constitucionais (Fundeb, subsídios, subvenções);
  • Avanço na tributação da renda (além do imposto mínimo de 10% para alta renda, atacar isenções de títulos privados).

O erro a evitar, segundo a análise técnica, é concentrar o esforço apenas no lado da receita. A redução estrutural da taxa real de juros depende da queda da trajetória do gasto.

Por que o gradualismo é a única aposta racional

Um ajuste abrupto derrubaria a atividade e comprometeria as políticas sociais, gerando resistência política insuperável. Um ajuste inexistente mantém os juros altos, travando o investimento e o crescimento. O “caminho do meio” — plano completo, gradual, mas anunciado já — é a única rota que concilia estabilidade macroeconômica com governabilidade.

A aposta de especialistas é que a experiência do presidente falará mais alto que o ceticismo de curto prazo. A consolidação de um plano coeso permite ao Banco Central iniciar um ciclo de queda de juros mais agressivo, abrindo espaço para a recuperação econômica no médio prazo.

O que observar daqui para frente

O termômetro não será o discurso de posse, mas a velocidade da montagem da equipe econômica e o envio das primeiras medidas estruturais ao Congresso. Fique atento a três sinais nas próximas semanas: a definição do alvo de superávit primário para 2025/2026, a disposição para mexer em “vacas sagradas” (previdência militar, supersalários, emendas) e a articulação política para aprovar a reforma da renda. A credibilidade se constrói com fatos, e o relógio começou a correr no dia seguinte à apuração.