Economia

Tesouro Direto: erro de timing no 1º turno apaga até 16% em 3 semanas

Gráfico de perdas no Tesouro Direto: títulos longos caem até 16% pós 1º turno eleitoral
Queda de até 16,2% em títulos longos do Tesouro Direto nas 3 semanas após o primeiro turno das eleições.

Investidores que compraram títulos longos do Tesouro Direto no primeiro pregão após o 1º turno das eleições viram o capital derreter até 16,2% em apenas 21 dias. A virada de cenário político transformou euforia em prejuízo real para quem resgatou antecipadamente.

O movimento expõe o risco de marcação a mercado em papéis de longo prazo quando a aposta macroeconômica falha. Entenda a dinâmica dos números e o que separa perda contábil de prejuízo definitivo.

O rali que virou armadilha

Em 5 de outubro, o mercado precificou uma vitória quase certa da oposição no segundo turno. As taxas dos títulos prefixados e atrelados ao IPCA despencaram — a segunda maior queda diária da série histórica iniciada em 2005. Com taxas caindo, os preços subiram. Quem entrou naquele dia pagou o topo.

Três semanas depois, a reeleição do atual presidente inverteu a lógica. O primeiro pregão pós-resultado registrou a maior alta diária de taxas da história para os prefixados. Na prática: o título comprado caro passou a valer muito menos.

Quanto dinheiro sumiu na prática

A simulação considera R$ 10 mil aplicados na abertura de 5/10 e vendidos no fechamento de 26/10, já descontada a taxa de custódia da B3 (0,20% a.a.). Sem IR nem IOF, pois houve perda nominal.

  • Tesouro IPCA+ 2050: taxa de compra em IPCA + 6,32% → venda a IPCA + 7,15%. Perda de 16,2% (R$ 10 mil viraram R$ 8.381). Na abertura do dia 26, a perda chegou a 26,8% (R$ 7.322).
  • Tesouro Prefixado 2032: taxa de 12,95% a.a. → 15,62% a.a. Perda de 10,7% (R$ 8.926 no fechamento).
  • Tesouro IPCA+ 2032: recuo de 4,6%.
  • Tesouro Prefixado 2029: recuo de 4,3%.

Para comparação, um CDB a 100% do CDI no mesmo período rendeu 0,4% líquido (cerca de R$ 39), sem volatilidade de preço.

Por que o prazo longo sangra mais

A sensibilidade do preço à variação de juros — o chamado duration — é proporcional ao tempo até o vencimento. O IPCA+ 2050 tem quase 24 anos pela frente; uma alta de 0,83 ponto percentual na taxa real derruba o preço com força muito maior do que em papéis de 2029 ou 2032.

É a matemática da marcação a mercado: títulos antigos pagam cupom menor que os novos emitidos com taxas mais altas. Para equilibrar, o preço cai.

O ganho anterior também encolheu

Quem entrou antes do 1º turno também sentiu o impacto. Um investimento de R$ 10 mil no IPCA+ 2050 feito em 30 de julho — quando o título pagava IPCA + 7,54%, a maior taxa da série — acumulava ganho bruto de 29,5% em 5 de outubro. No fechamento de 26 de outubro, esse ganho bruto caiu para 11,6%.

A euforia do rali pós-1º turno devolveu mais da metade da valorização acumulada em meses.

Perda só existe para quem vende

Este é o ponto central: quem comprou em 5 de outubro e levar o título até o vencimento receberá exatamente a rentabilidade contratada — IPCA + 6,32% a.a. no IPCA+ 2050 e 12,95% a.a. no Prefixado 2032, antes de impostos e custódia. A volatilidade é apenas contábil enquanto o papel permanece na carteira.

Porém, a liquidez do Tesouro Direto permite resgate diário. A tentação de “parar a perda” transforma oscilação em prejuízo real.

O que dizem os especialistas

Vinícius Romano, coordenador de Investimentos da Suno Consultora, prega cautela dupla: “Agora é manter a cabeça no lugar e não comprar ou vender no calor do momento”.

Glauber Sá, fundador da Akros Consultoria, foca na disciplina: “O erro mais caro não é comprar no dia errado, é abandonar a estratégia no meio do caminho”. Ambos convergem: decisões emocionais em cenários de alta incerteza fiscal tendem a destruir valor.

O que observar daqui para frente

O mercado segue sensível a sinais fiscais do novo governo. Três variáveis ditam o próximo movimento das taxas longas:

  • Anúncio da equipe econômica e âncora fiscal crível.
  • Trajetória da dívida pública/PIB nas projeções oficiais.
  • Comportamento do dólar e expectativas de inflação para 2024/2025.

Enquanto a incerteza persistir, a volatilidade nos títulos longos deve permanecer elevada. Para o investidor, a lição prática é alinhar o prazo do título ao horizonte de necessidade do recurso — e resistir ao impulso de transformar ruído de curto prazo em decisão de portfólio.