Economia

O segredo que o mercado ignorou: governo vai mudar a regra do jogo fiscal

Ministro Dario Durigan anuncia nova regra fiscal em coletiva no Palácio do Planalto
Governo apresenta medida para obrigar busca do centro da meta fiscal, não apenas do piso

O governo federal vai apresentar uma medida para obrigar o Executivo a perseguir o centro da meta fiscal, não apenas o piso — uma mudança que pode alterar a trajetória da dívida pública e dos juros. O anúncio vem após uma segunda-feira de derretimento nos ativos brasileiros. Mas o que realmente está em jogo vai além da reação imediata do mercado.

O ministro Dario Durigan confirmou a iniciativa nesta terça-feira em Brasília. A regra atual permite contingenciar despesas apenas se o resultado ficar abaixo do limite inferior da meta. A proposta inverte essa lógica: o alvo passa a ser o ponto central.

Por que a diferença entre centro e piso muda tudo

Para 2027, a meta de superávit primário é de R$ 73,2 bilhões. O piso, porém, fica em R$ 36,6 bilhões — exatamente a metade. Hoje, se as contas fecharem no piso, a regra fiscal é considerada cumprida e o governo não precisa cortar mais nada.

Com a nova regra, o contingenciamento seria acionado sempre que a projeção se afastasse do centro. Na prática, isso exige um esforço fiscal adicional de dezenas de bilhões por ano.

  • Meta 2027 (centro): superávit de R$ 73,2 bi
  • Piso atual: superávit de R$ 36,6 bi
  • Diferença: R$ 36,6 bi a mais de ajuste necessário
  • Dívida bruta (ago/2024): 82,9% do PIB — alta de 11 pp no governo Lula 3

O entrave jurídico que ninguém esperava

Durigan afirma que um projeto de lei complementar basta. Técnicos do próprio governo, porém, citam a necessidade de emenda constitucional. A dúvida reside na impositividade do Orçamento: se a meta está sendo cumprida no piso, o Executivo não teria base legal para congelar despesas.

Essa incerteza jurídica é um dos motivos pelos quais o mercado reagiu com ceticismo na véspera. O dólar bateu R$ 5,40 e a Bolsa recuou forte. Nesta terça, houve correção: moeda a R$ 5,34 e índice estável.

O que o Tesouro fez enquanto ninguém olhava

Durante o estresse de segunda-feira, o Tesouro Nacional interveio no mercado de títulos públicos para garantir liquidez. Durigan disse que a atuação pode se repetir. A sinalização é clara: o governo não vai deixar a curva de juros desancorar enquanto as medidas fiscais não são detalhadas.

Mas intervenção não substitui ajuste estrutural. Analistas ouvidos reservadamente apontam que, sem a perseguição do centro da meta, a dívida bruta segue em trajetória explosiva e a Selic dificilmente cai de forma sustentável.

Medidas na gaveta — e o relógio correndo

O ministro garantiu ter “uma série de medidas prontas”, mas não deu detalhes. Disse apenas que, após a eleição, o presidente definirá a equipe e depois o pacote será apresentado. Entre os itens já conhecidos:

  • MP das alíquotas do imposto seletivo (saúde e meio ambiente) — envio até sexta
  • PEC para estender IPI sobre bebidas e cigarros até o seletivo vigorar
  • Desenrola 3.0 para limpar passivo das famílias

A MP do seletivo, se aprovada rápido, valeria a partir de fevereiro. A PEC do IPI serve como ponte até lá.

O que observar daqui para frente

A definição do próximo ministro da Fazenda — Rafael Fonteles é cotado e Durigan o chamou de “excelente nome” — será o primeiro teste de credibilidade. O segundo: o detalhamento do tamanho do ajuste e sua composição (corte de gasto vs. aumento de receita). O terceiro: a velocidade de tramitação no Congresso. Cada semana de atraso adiciona prêmio de risco à curva de juros e pressiona o câmbio. Quem acompanha o orçamento público deve monitorar não só o anúncio, mas a redação final do instrumento jurídico escolhido — PL ou PEC — porque dela depende se a regra terá dentes ou será apenas sinalização.