A Advent International fechou a captação de seu maior fundo global, somando US$ 27 bilhões, e adicionou mais US$ 3 bilhões para uma estratégia inédita no middle market. O movimento sinaliza apetite continuado de grandes investidores por private equity mesmo com juros altos.
O valor supera em US$ 2 bilhões o recorde anterior da casa, registrado em 2022. Mas a cifra chama atenção sobretudo pelo destino: até US$ 6 bilhões podem migrar para mercados emergentes via co-investimento com os fundos locais da gestora.
Por que o Brasil entra no radar desse capital
Juan Pablo Zucchini, head de private equity para a América Latina, afirma que o pipeline brasileiro segue robusto apesar do cenário macroeconômico. A tese mira setores que já são prioridade global da Advent: consumo, serviços financeiros, industrial, saúde e tecnologia.
O argumento central é estrutural: o país concentra um ecossistema vasto de empresas, muitas de controle familiar, que precisam de capital e melhorias operacionais para escalar. Esse perfil casa com o modelo de value creation da gestora.
O novo veículo de middle market: números e regras
O fundo dedicado ao middle market nasceu do crescimento desse segmento nos EUA e Europa — onde os aportes serão concentrados. As tickets variam entre US$ 100 milhões e US$ 350 milhões em negócios com valuation de até US$ 1,25 bilhão.
- Foco geográfico: Estados Unidos e Europa
- Tamanho do cheque: US$ 100 mi a US$ 350 mi
- Teto de valuation: US$ 1,25 bilhão
- Capital comprometido: US$ 3 bilhões
A separação de estratégias reflete a busca por alinhar horizonte de retorno e governança ao perfil de cada empresa-alvo.
Contexto de portfólio: saídas superaram entradas em 2024
A Advent administra hoje cerca de US$ 109 bilhões em ativos. No ano passado, a gestora realizou cerca de US$ 13 bilhões em desinvestimentos — um dos maiores volumes anuais de sua história. Por outro lado, novos aportes e follow-ons somaram aproximadamente US$ 10 bilhões.
O descompasso entre saídas e entradas não é necessariamente negativo: indica disciplina de preço na origem e capacidade de realizar valor em janelas de liquidez favoráveis.
Rastros recentes no mercado brasileiro
Desde 1997, a Advent já destinou cerca de US$ 6,6 bilhões ao Brasil. Os movimentos mais recentes reforçam a tese setorial:
- Aquisição de 8% do capital da Natura (2024)
- Participação na rodada Série C da SkyOne (2025)
Ambos os casos envolvem empresas em transição — uma gigante de consumo em reestruturação e uma scale-up de tecnologia —, perfis que costumam demandar o capital paciente e a expertise operacional que a gestora oferece.
O que observar nos próximos trimestres
A alocação dos US$ 6 bilhões reservados a emergentes será o termômetro mais claro da convicção da Advent na tese latina. Outro ponto de atenção: a velocidade de deploy do fundo principal diante de valuations ainda pressionados por juros globais elevados.
Para empreendedores e conselheiros de empresas familiares brasileiras, a mensagem prática é clara: capital sofisticado está disponível, mas a seletividade aumentou. Preparação de governança, clareza de plano de criação de valuation e disposição para parceria operacional deixaram de ser diferenciais — viraram pré-requisitos.
