O contrato futuro do trigo em Chicago derreteu para US$ 6,10 o bushel — uma queda de 13% em poucos dias —, mas o empresário brasileiro não tem motivo para comemorar. Enquanto o mercado internacional alivia, o Brasil caminha para importar um volume recorde de 7,1 milhões de toneladas. A conta dessa discrepância já chegou à padaria: o pão subiu 2,7% no ano só em São Paulo.
Por que a queda lá fora não vira alívio aqui dentro? A resposta passa por uma tempestade perfeita entre safras frustradas no Hemisfério Norte, logística de guerra no Mar Negro e uma produção nacional que encolheu ao menor patamar da história recente.
O mapa global: oferta curta e frete caro
A safra mundial 2026/27 deve somar 822 milhões de toneladas, 22 milhões a menos que no ciclo anterior, segundo o USDA. A União Europeia colheu 124 milhões de toneladas — dois milhões abaixo do esperado —, reduzindo seu poder de exportação para 29 milhões. A Austrália produziu 17% menos, totalizando 29,9 milhões.
Rússia e Ucrânia mantêm volumes estáveis, mas o escoamento segue refém do conflito. O Canadá colheu 36 milhões (11% a menos que em 2025), ainda acima da média quinquenal, e deve exportar 30 milhões. O ponto fora da curva é a Argentina: a estimativa subiu para 24 milhões de toneladas, perto do recorde, mas insuficiente para cobrir o buraco global.
- Produção mundial (2026/27): 822 mi ton (-2,6%)
- Exportações UE: 29 mi ton (revisão para baixo)
- Argentina: 24 mi ton (revisão para cima)
- Brasil (importação projetada): 7,1 mi ton (recorde)
O buraco brasileiro: produz 5,7, consome 12
O cenário doméstico é o mais crítico em décadas. A colheita nacional estimada em 5,7 milhões de toneladas cobre menos da metade do consumo anual de 12 milhões. A Conab confirma: teremos de comprar fora pelo menos 7,1 milhões de toneladas, uma das maiores importações da série histórica.
Resultado prático: o Brasil exportou apenas 970 mil toneladas este ano, contra 2,3 milhões em todo 2025. O país virou importador líquido agressivo justamente quando o dólar pressiona os custos de aquisição.
O atraso no repasse: por que o consumidor ainda paga mais
A Fipe registra alta de 1,15% no pão francês nas últimas quatro semanas na capital paulista. A queda em Chicago ainda não migrou para a gôndola por três motivos: o câmbio corroeu a vantagem da compra externa, os estoques internos foram formados a preços maiores e a moagem repassa com defasagem.
Enquanto o produtor argentino colhe mais e o americano colhe menos, o industrial brasileiro fica espremido entre o custo de reposição em dólar e a capacidade de pagamento do varejo.
Soja e milho: o contraponto das commodities irmãs
O complexo soja segue em ritmo histórico: 6,2 milhões de toneladas embarcadas só no mês atual, acumulando 108 milhões nos dez primeiros meses — já superando o total de 2025. O milho, porém, recua forte: 26 milhões exportados até outubro, bem abaixo dos 42 milhões do ano passado. A rotação de culturas e a janela de plantio explicam parte da divergência.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o próximo trimestre: o ritmo de carregamento dos portos argententes (a safra grande precisa sair), a taxa de câmbio — cada centavo de alta no dólar adiciona cerca de R$ 15/ton ao custo de importação — e a política de estoques públicos. Se a Conab não atuar para suavizar a entressafra, o repasse ao varejo continuará ascendente, pressionando inflação de alimentos e margens da indústria de panificação.
