Listas com nomes de comerciantes e empresários da região de Ribeirão Preto estão circulando em redes sociais e grupos de WhatsApp com um único objetivo: punir quem votou em Lula. O Ministério Público classifica a prática como crime de injúria e alerta que autores e compartilhadores podem responder na Justiça. Dez municípios já registraram casos.
O movimento começou horas após o segundo turno das eleições de 2026 e expõe um cenário de intimidação que atinge não só os donos de negócios, mas funcionários e famílias. A seguir, entenda os riscos jurídicos, o impacto real no comércio e o que as principais entidades de classe estão fazendo a respeito.
O que diz a lei e por que o MP entrou no caso
O promotor Carlos Cezar Barbosa, responsável pelas áreas de direitos humanos e inclusão social em Ribeirão Preto, foi direto: a divulgação e o compartilhamento dessas listas configuram injúria. O crime contra a honra prevê pena de detenção de um a seis meses, além de multa.
Segundo o promotor, quem cria ou repassa o conteúdo se coloca em posição “supremacista”, ofendendo a dignidade de quem figura na lista. A Polícia Civil dispõe de ferramentas tecnológicas para rastrear a origem das mensagens e identificar os responsáveis.
Além da esfera criminal, há espaço para ações cíveis por danos materiais. Comerciantes que comprovarem queda de faturamento decorrente da exposição podem pedir indenização. A orientação do MP é clara: registre boletim de ocorrência imediatamente.
Dez cidades, centenas de nomes e o medo nos bastidores
As listas já apareceram em Ribeirão Preto, Serrana, Sertãozinho, Franca, Brodowski, Altinópolis, Santa Rosa de Viterbo, Bebedouro, Barretos e Cajuru. Em Serrana, o empresário Francisco Meghelli, dono de uma imobiliária, viu o nome da empresa exposto após declarar voto no presidente reeleito.
“É uma tentativa de intimidação gigantesca. A ideia é fazer quem pensa diferente se calar”, disse Meghelli. Em Ribeirão Preto, o comerciante Junior Andrade, de uma casa de açaí, entrou na lista sem nunca ter declarado preferência partidária. Funcionárias relataram xingamentos na rua.
- Ribeirão Preto: bares, imobiliárias e comércios de bairro listados
- Serrana: empresários do setor imobiliário e de serviços
- Sertãozinho e Franca: concentraram maior volume de compartilhamentos
- Cidades menores: Brodowski, Altinópolis, Cajuru — onde o impacto relacional é mais forte
A veterinária Elaine Cristina Sobral, de Brodowski, resume o absurdo: atende 14 mil pacientes há 14 anos sem jamais perguntar a orientação política de ninguém. “Isso não importa para mim”, afirmou.
Entidades de classe: “A divergência não pode virar arma”
A Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (Acirp) divulgou nota dura: a convivência plural é preceito fundamental da atividade econômica. “Discordar é legítimo; transformar a divergência em motivo para hostilizar compromete o respeito mútuo”, diz o texto.
O Sindicato do Comércio Varejista (Sincovarp), que representa o setor em 44 municípios, foi além: “A eleição acabou. O comércio tem de olhar para frente. Iniciativas que provocam divisões não agregam nada.” A entidade defende diálogo, bom senso e equilíbrio como caminho para a recuperação econômica local.
O que observar daqui para frente
O desdobramento imediato depende de dois vetores: a velocidade das investigações policiais para identificar os autores originais das listas e a disposição dos empresários lesionados em acionar a Justiça cível por danos materiais. Ambos movem-se em ritmos diferentes.
Enquanto a esfera criminal apura autoria e intenção, a esfera patrimonial exige prova de nexo causal entre a exposição na lista e a queda de receita — algo que contadores e advogados já começam a documentar na região. Para o comerciante ou investidor que acompanha o cenário, o sinal de alerta é claro: listas de boicote motivadas por opinião política não são apenas ruído nas redes. Elas geram passivo jurídico real, afetam fluxo de caixa e criam insegurança institucional que afugenta capital.
Nos próximos dias, espera-se que a Polícia Civil divulgue os primeiros inquéritos abertos. Se houver condenações, o precedente pode inibir práticas semelhantes em outras regiões. Até lá, a recomendação prática permanece: documente tudo, registre BO e procure assessoria jurídica especializada em responsabilidade civil e crimes contra a honra.
