O liquidante do Banco Master acionou a Justiça americana para reaver uma cobertura de luxo em Sunny Isles Beach, alegando que o imóvel foi comprado com recursos desviados da instituição. O pedido, protocolado em 23 de outubro no Tribunal de Falências do Sul da Flórida, mira não apenas o apartamento — mas toda a engenharia societária que o colocou nas mãos da ex-mulher de Daniel Vorcaro.
A ação tem como réus Fabíola de Almeida Macedo Vorcaro e duas empresas americanas: a PH 47 LLC (Delaware), dona do imóvel, e a Arya Investments LLC (Nevada), que controla a primeira. Segundo a EFB Regimes Especiais, ambas pertenciam ao ex-banqueiro.
O imóvel que disparou a investigação
A cobertura fica no Mansions at Acqualina, edifício de altíssimo padrão na Flórida. São cerca de 860 m² reunindo as unidades 4.701 e 4.702 — quatro quartos, sete banheiros e acabamentos de luxo. A compra foi fechada em julho de 2021 por US$ 27 milhões, na época a terceira transação mais cara da história do condado de Miami-Dade.
O pagamento ocorreu em três etapas: sinal, parcelas mensais de US$ 1 milhão e o valor de fechamento. Os recursos percorreram um caminho sinuoso: Ilhas Cayman, Delaware, Mosaic Financial (Bahamas) e, por fim, a Kodiak Trust Company (Alasca), administradora do Fortress Legacy Trust — holding criada em 2019 para gerir o patrimônio dos Vorcaro nos EUA.
O rastro do dinheiro segundo o liquidante
A petição detalha que a Kodiak recebeu US$ 114,1 milhões da Mosaic entre julho de 2020 e junho de 2023. Um email de setembro de 2020, enviado por funcionário da Mosaic, menciona o envio de US$ 1 milhão ao vendedor do apartamento “que Daniel comprou”.
Para a EFB, a estrutura serviu para ocultar a origem dos valores e blindar o real beneficiário. O estado de Delaware, onde a PH 47 foi constituída, não exige divulgação pública do beneficiário final — o que dificultou o rastreamento até agora.
A transferência para a ex-mulher e o que veio depois
Em janeiro de 2024, um representante de Vorcaro no exterior informou à Kodiak que o divórcio, formalizado em meados de 2023, exigia a transferência das participações na Arya e na PH 47 para Fabíola. A cessão, segundo o liquidante, ocorreu sem nenhum pagamento.
Mesmo após a transferência, o Fortress Trust continuou arcando com as despesas da cobertura — condomínio, impostos, manutenção — até o bloqueio dos ativos. Registros do condado mostram que, mais de dois anos depois, o endereço de correspondência do imóvel continua sendo o escritório da Kodiak Trust.
- Compra: julho de 2021 | US$ 27 milhões (R$ 140 milhões na cotação atual)
- Estrutura: Octa Investments (Bahamas) → PH 47 LLC (Delaware) → Arya Investments LLC (Nevada)
- Fluxo identificado: US$ 114,1 milhões da Mosaic para a Kodiak (jul/2020 a jun/2023)
- Divórcio: meados de 2023 | transferência societária para Fabíola em jan/2024
O que o liquidante pede à Justiça americana
O pedido principal é a anulação das transferências financeiras que bancaram a aquisição e das operações que moveram o bem para a ex-mulher. A EFB também solicita medida cautelar para impedir a venda do imóvel e a devolução dos valores — ou do próprio apartamento — à massa falida do banco.
A alegação central: a transferência teria sido uma simulação para colocar o ativo fora do alcance dos credores. A Justiça dos EUA foi acionada para bloquear qualquer negociação enquanto o caso é analisado.
Outros imóveis e a expansão da investigação
Esta não é a única frente. Em agosto, a Folha revelou que a EFB protocolou três intimações contra escritórios de advocacia na Flórida — Greenberg Traurig, Rennert Vogel Mandler & Rodriguez e VMM Law. O objetivo: obter contratos, escrituras e o rastro completo do dinheiro usado na compra de três imóveis, incluindo outro em Sunny Isles Beach, em edifício distinto.
Os advogados querem nomes de titulares de contas, sócios de empresas, trocas de emails, mensagens e a indicação dos bancos envolvidos — com os códigos Swift das transferências internacionais.
O que observar daqui para frente
O desfecho depende da resposta dos réus e da celeridade do tribunal de falências. Se a anulação for concedida, o imóvel volta ao patrimônio disponível para credores do Banco Master — o que pode alterar a recuperação de valores no processo de liquidação extrajudicial em curso no Brasil. Paralelamente, a apuração dos outros dois imóveis e a quebra de sigilo dos escritórios americanos podem revelar novos ativos e conexões. Para investidores e credores, o sinal claro é: a caça aos bens no exterior entrou em fase decisiva.
