Cultura

O mapa do voto: 7 em cada 10 redutos de Bolsonaro estão no Sul — e o campeão tem 2,3 mil habitantes

Mapa do Brasil destacando 7 de 10 maiores redutos proporcionais de Bolsonaro no Sul, com município campeão de 2,3 mil habitantes
Mapa revela concentração de votos proporcionais de Bolsonaro em pequenas cidades do Sul nas eleições de 2022

Das dez cidades onde o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) obteve as maiores votações proporcionais no segundo turno de 2022, sete ficam no Rio Grande do Sul. O dado revela um padrão geográfico forte, mas esconde uma nuance decisiva: o município líder tem menos de 2,5 mil eleitores.

O levantamento considera apenas votos válidos em 5.566 municípios com apuração finalizada. Brancos, nulos e abstenções ficam fora da conta. O que emerge é um retrato do eleitorado conservador concentrado em pequenas comunidades da Serra e do interior gaúcho.

Nova Pádua: 90,56% em uma cidade que cabe num estádio

No topo do ranking aparece Nova Pádua, na Serra Gaúcha. Com 2,3 mil habitantes, o município registrou 1.890 votos para Bolsonaro — 90,56% dos válidos. Lula (PT) recebeu 197 votos (9,44%). O comparecimento foi alto: 98,17% dos 2.126 eleitores aptos compareceram às urnas.

O fenômeno não é isolado. As três posições seguintes também pertencem ao Rio Grande do Sul:

  • Vespasiano Corrêa: 87,82%
  • Monte Belo do Sul: 86,83%
  • Pinto Bandeira: 86,58%

Todas são municípios pequenos, com economias baseadas em agricultura familiar, viticultura e turismo rural. O perfil demográfico — população envelhecida, forte identidade cultural europeia e baixa diversidade étnica — costuma correlacionar-se com votações conservadoras expressivas.

O domínio gaúcho no top 10 e os “intrusos”

Além das quatro primeiras, outras três cidades do RS completam a lista das dez maiores votações proporcionais: Arroio do Padre (6º), Nova Bassano (8º) e Anta Gorda (9º). O Paraná emplacou duas representantes; Santa Catarina, uma.

Essa concentração não significa, porém, que o estado tenha virado um bloco monolítico. No cômputo geral do Rio Grande do Sul, Bolsonaro venceu com 57,84% dos votos válidos (3,87 milhões), contra 42,16% de Lula (2,82 milhões). A diferença de 15,7 pontos percentuais é significativa, mas menor do que os percentuais vistos nos micro-redutos.

Por que o percentual explode nas cidades pequenas?

Especialistas em comportamento eleitoral apontam três fatores que amplificam margens em municípios de baixo eleitorado:

  • Homogeneidade social: redes de parentesco, religião e trabalho criam consenso político;
  • Efeito “voto de cabresto” moderno: lideranças locais (vereadores, padres, patrões) influenciam decisão coletiva;
  • Baixa rotatividade: pouca migração impede a chegada de novos eleitores com perfis diferentes.

Em contrapartida, nas grandes capitais e regiões metropolitanas, a diversidade demográfica dilui extremos. Porto Alegre, por exemplo, deu 53,4% a Bolsonaro — vitória, mas bem distante dos 90% de Nova Pádua.

O outro lado do mapa: onde Lula passou dos 90%

Para efeito de comparação, o TSE também divulgou o ranking inverso. Os dez municípios com maiores percentuais para Lula estão concentrados no Nordeste, majoritariamente no semiárido. O líder, Uiramutã (RR), deu 95,3% ao petista. A lógica espelha a do Sul: pequenas cidades, economias dependentes de transferências federais (Bolsa Família, aposentadorias rurais) e forte presença de movimentos sociais.

O Brasil, portanto, não se divide em dois blocos contíguos. Ele se fragmenta em ilhas de consenso intenso, separadas por oceanos de disputas acirradas.

O que observar nas próximas eleições

Três sinais merecem atenção de analistas e estrategistas para 2026:

  • A manutenção ou erosão desses percentuais extremos em micro-redutos;
  • A capacidade de cada campo de expandir margens nas cidades médias (50 mil a 200 mil eleitores), onde a eleição de fato se decide;
  • O impacto da migração interna e da urbanização tardia no perfil do eleitorado serrano gaúcho.

O mapa de 2022 não é destino — é fotografia. Mas a nitidez com que ele separa o país em arquipélagos ideológicos sugere que a próxima disputa será jogada, mais uma vez, na borda entre ilhas e continentes.