A Novartis contabilizou um prejuízo contábil de US$ 2,2 bilhões no terceiro trimestre após dois medicamentos promissores falharem em testes decisivos. Ainda assim, a farmacêutica suíça elevou a projeção de lucro operacional para 2024. Como uma empresa absorve um golpe dessa magnitude e sai mais otimista do que entrou?
A resposta está na diferença entre o que pesa no balanço hoje e o que move o caixa amanhã.
O tamanho do tombo nos laboratórios
Os dois reveses vieram em setembro, com dias de diferença. O mais caro foi o del-desiran, candidato a tratar distrofia miotônica — doença degenerativa muscular sem terapia aprovada. A Novartis herdou o ativo na compra da Avidity por US$ 12 bilhões, anunciada em 2025. O valor contábil do medicamento caiu de US$ 7,48 bilhões para cerca de US$ 5,6 bilhões após uma baixa parcial de US$ 1,9 bilhão.
O segundo fracasso, o pelacarsen (doenças cardíacas), foi zerado: US$ 300 milhões baixados integralmente.
Somados, os encargos explicam a queda de 61% no lucro operacional do trimestre. Mas não contam a história toda.
Por que a diretoria sorriu ao fechar o balanço
Enquanto os pipelines de pesquisa sangravam, os produtos já no mercado entregaram. A demanda por oncológicos e pelo tratamento de esclerose múltipla superou as expectativas no terceiro trimestre. O caixa gerado pelas vendas atuais compensou, com folga, o buraco contábil dos projetos futuros.
Resultado: a previsão de lucro operacional básico para o ano saltou de “queda de um dígito baixo” para “crescimento de um dígito baixo”. A meta de receita líquida permanece inalterada — expansão de um dígito baixo.
O que fica em aberto para o investidor
- Del-desiran: a Novartis mantém a aposta. Atrasos no desenvolvimento forçaram a reavaliação, mas a tese de valor segue de pé.
- Pelacarsen: capítulo encerrado. Sem recuperação prevista.
- Pipeline oncológico: continua sendo o motor de curto prazo — e o principal amortecedor de riscos de P&D.
O que observar daqui para frente
O mercado costuma punir falhas em fase avançada com mais dureza do que recompensa a execução comercial sólida. Nos próximos trimestres, dois sinais dirão se a revisão de guidance foi prudente ou otimista demais: a trajetória de margem operacional excluindo itens não recorrentes e a velocidade de conversão dos lançamentos oncológicos em receita recorrente. Quem olha só o lucro reportado perde a metade da equação.
