Economia

Governo enterra ajuste fiscal por ora: o que Guimarães não disse ao mercado

Ministro José Guimarães discursa no Congresso sobre adiamento do ajuste fiscal para 2025
Guimarães confirma que ajuste fiscal fica para 2025, frustrando expectativas do mercado financeiro.

O ministro José Guimarães foi direto: ajuste fiscal não está na pauta nem no radar do Planalto até dezembro. A declaração derruba a expectativa de investidores que aguardavam um sinal de contenção de despesas ainda este ano.

Em vez do pacote fiscal, o líder do governo no Congresso elegeu três bandeiras prioritárias. O mercado, que já havia reagido mal na véspera, agora precisa recalcular a rota.

As três pautas que empurram o ajuste para 2025

Guimarães listou, em ordem de urgência, o que deve ser votado até 20 de dezembro:

  • PEC da Segurança Pública — reforma constitucional na área;
  • MP do fim das bets — regulamentação do mercado de apostas;
  • PEC da tarifa zero — gratuidade no transporte público coletivo.

Nenhuma das três trata de corte de gastos ou aumento de receita permanente. A mensagem ao Congresso é clara: a articulação política vai gastar capital nesses temas, não no equilíbrio das contas.

O recado que o mercado não queria ouvir

Questionado sobre as propostas do Ministério da Fazenda, Guimarães foi taxativo: “esse assunto não foi discutido na bancada e nem no governo”. A frase ecoou como um balde de água fria para quem apostava em anúncio rápido de medidas estruturais.

O silêncio sobre o ajuste contrasta com a turbulência da véspera. O dólar teve a maior alta diária desde 1999 e o Ibovespa despencou 13,88%, para 176.608 pontos — pior queda desde março de 2020. A B3 acionou o circuit breaker pela primeira vez em quatro anos.

Durigan tenta conter os danos

O secretário-executivo da Fazenda, Dario Durigan, minimizou o pânico. Para ele, o movimento reflete apenas o desmonte de posições montadas antes da eleição, não desconfiança estrutural.

“O mercado estava apostando numa vitória eleitoral. O presidente Lula, em uma vitória histórica, desbancou a expectativa e o mercado troca agora de posições num dia”, afirmou.

Durigan revelou ter se reunido com Lula na noite de segunda para apresentar o balanço da tempestade e defender “sinalizações muito propositivas” ao Congresso e aos investidores.

A proposta que pode mudar o jogo — se sair do papel

Entre as medidas em preparação, Durigan destacou uma alteração legislativa para obrigar o governo a perseguir o centro da meta fiscal, e não apenas o limite inferior da banda de tolerância.

A mudança ampliaria os instrumentos de contingenciamento, forçando a execução orçamentária a convergir para a meta cheia. No papel, é um endurecimento. Na prática, depende de vontade política que, hoje, não aparece no discurso do Palácio.

Base aliada: fidelidade cobrada, ministérios como moeda

Na reunião com a bancada do PT, Guimarães avisou: partidos que ocuparem ministérios terão de votar com o governo. “Não pode um partido com três ministérios ficar sistematicamente votando contra as propostas do governo”, disse.

A estratégia é transformar a participação na Esplanada em votos certos. O risco: se o ajuste fiscal não for negociado agora, a base pode cobrar a fatura em 2025 com emendas e pautas-bomba.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar o humor dos ativos nas próximas semanas: a tramitação das três PECs/MPs prioritárias, a disposição de Haddad em apresentar o pacote fiscal mesmo sem aval do Planalto, e a reação do Banco Central ao hiato entre discurso e prática. Quem lê o Diário Oficial e acompanha as comissões mistas sai na frente.