Saúde

Professor morre em sala de aula: o alerta silencioso sobre saúde no trabalho

Escola pública Emef Oziel Alves Pereira em Campinas onde professor faleceu em sala de aula
Escola onde professor Alexandre Lippaus Rocha, 42 anos, sofreu mal súbito fatal durante aula

O professor de geografia Alexandre Lippaus Rocha, de 42 anos, faleceu na manhã desta terça-feira (27) após sofrer um mal súbito durante o expediente na Emef/EJA Oziel Alves Pereira, no Jardim Monte Cristo, em Campinas. O caso reacende o debate sobre condições de saúde e suporte emergencial nas escolas públicas.

Ele lecionava na rede municipal havia dois anos. Segundo a Secretaria de Educação, a direção acionou Samu e Corpo de Bombeiros imediatamente, mas a vítima não resistiu. As aulas foram suspensas no dia e uma equipe de apoio psicológico permanece na unidade.

O que a rotina escolar esconde sobre riscos ocupacionais

Professores estão entre as categorias com maiores índices de afastamento por transtornos mentais e cardiovasculares. Dados do INSS mostram que a educação figura no top 5 de concessões de auxílio-doença por doenças do sistema circulatório.

A combinação de jornada estendida, salas superlotadas, exposição a ruído constante e pressão por resultados cria um cenário de estresse crônico. Muitas vezes, sinais precoces — hipertensão descontrolada, arritmias, exaustão — passam despercebidos até um evento agudo.

Resposta da rede: protocolo seguido, mas lacunas permanecem

A secretaria confirmou que o procedimento de emergência foi acionado no tempo certo. Ainda assim, a escola não dispunha de desfibrilador (DEA) no momento — equipamento que eleva em até 70% a sobrevida em paradas cardíacas quando usado nos primeiros 3 minutos.

  • Tempo médio de chegada do Samu na região: 12 a 18 minutos
  • Escolas municipais com DEA em Campinas: menos de 15%
  • Professores afastados por saúde em 2023 (rede municipal): 312 casos

O impacto além da sala de aula

Alunos do EJA — jovens e adultos que retornam aos estudos — perderam uma referência. Funcionários relatam abalo emocional. A secretaria promete acolhimento contínuo, mas especialistas alertam: luto não resolvido em ambiente escolar pode gerar evasão e queda de rendimento por meses.

Para a gestão pública, o custo indireto inclui substituição emergencial, processos trabalhistas e, sobretudo, a erosão da confiança da comunidade na escola como espaço seguro.

O que observar daqui para frente

Três movimentos merecem acompanhamento: a cobrança por lei municipal que obrigue DEA em unidades com mais de 500 alunos; a ampliação de programas de check-up cardíaco periódico para servidores da educação; e a revisão de cargas horárias que impedem pausas reais para recuperação fisiológica. A morte de Alexandre não foi um “acidente inevitável” — foi um sintoma de um sistema que ainda trata saúde do trabalhador como custo, não como investimento.