Justiça

PF mira R$ 100 mi em fundo de servidores: o que está por trás da Operação Entressafras…

Polícia Federal na Operação Entressafras investiga desvio de R$ 100 milhões na São Roque Prev
Agentes da PF cumprem mandados na Operação Entressafras que apura fraude em fundo de servidores.

A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira (27) a Operação Entressafras para investigar movimentações suspeitas de cerca de R$ 100 milhões na São Roque Prev, entidade que gere a previdência dos servidores municipais de São Roque, no interior paulista. O esquema teria funcionado entre 2022 e 2024, sem pareceres técnicos que justificassem as aplicações.

O volume chama atenção: mais de R$ 90 milhões teriam sido direcionados ao Banco Master, instituição controlada por Daniel Vorcaro — atualmente preso em outra investigação. A conexão entre os dois casos ainda não foi confirmada oficialmente, mas aproxima dois universos que, até pouco tempo, pareciam distantes.

Como a operação chegou até aqui

A apuração identificou que os recursos do fundo foram aplicados sem a fundamentação exigida pela legislação previdenciária. Não haveria análises de risco, pareceres de comitês de investimento ou registro de deliberações formais. Em tese, cada real aplicado deveria passar por governança rigorosa — o que não ocorreu.

Os mandados de busca e apreensão (nove no total) foram cumpridos em endereços ligados à gestão da entidade em São Roque e também no estado de Pernambuco. A PF aponta indícios de gestão fraudulenta, lavagem de capitais, peculato financeiro e crimes contra a administração pública.

O peso do Banco Master na equação

A concentração de mais de 90% dos valores investigados em uma única instituição financeira acende um alerta técnico. A legislação previdenciária veda a concentração excessiva em um só ativo ou contraparte justamente para proteger o patrimônio dos beneficiários.

  • Período investigado: janeiro de 2022 a outubro de 2024
  • Valor total movimentado sob suspeita: ~R$ 100 milhões
  • Volume aplicado no Banco Master: > R$ 90 milhões
  • Mandados cumpridos: 9 (São Roque/SP e Pernambuco)

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, foi preso preventivamente em agosto deste ano no âmbito de outra operação que apura fraudes em fundos de investimento e uso de “laranjas” para ocultar beneficiários finais. A proximidade temporal entre as duas investigações leva analistas a suspeitar de elo estrutural — mas a PF mantém os inquéritos apartados por enquanto.

Impacto direto no bolso do servidor

São Roque tem cerca de 85 mil habitantes e um quadro de servidores que depende integralmente da solvência da São Roque Prev para aposentadorias e pensões. Qualquer prejuízo patrimonial recai, em última instância, sobre o município — e, por extensão, sobre o contribuinte local.

Entidades de fiscalização como a Previc (Superintendência Nacional de Previdência Complementar) e o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo devem ser acionadas para auditar a regularidade dos atos de gestão praticados no período. Ainda não há informação sobre afastamento cautelar de dirigentes.

O que observar daqui para frente

A velocidade das buscas sugere que a PF já possui elementos documentais robustos — possivelmente obtidos via quebra de sigilo bancário e telemático autorizada judicialmente. O próximo passo costuma ser a oitiva de gestores e conselheiros da entidade, seguida de análise de minutas de deliberações, e-mails internos e contratos de prestação de serviços de assessoria de investimento.

Para quem acompanha o mercado de previdência municipal, o caso serve de alerta: fundos de pequeno e médio porte, com governança frágil e dependência de poucos gestores, tornam-se alvos preferenciais para desvios sofisticados. Acompanhar os desdobramentos da Operação Entressafras e eventuais cruzamentos com a investigação do Banco Master será essencial para dimensionar a extensão real do prejuízo — e saber se há outros “São Roques” pelo país.