Justiça

STF manda PF investigar interferência estrangeira na eleição: terras raras e dinheiro oculto no radar

Ministro Flávio Dino do STF assina despacho determinando investigação da PF sobre interferência estrangeira nas eleições 2026
STF autoriza inquérito da PF para apurar interferência externa e oferta de terras raras nas eleições de 2026

O Supremo Tribunal Federal determinou a abertura de inquérito da Polícia Federal para apurar indícios de interferência externa no processo eleitoral brasileiro de 2026. A decisão, assinada pelo ministro Flávio Dino, atinge suspeitas que vão desde financiamento oculto de campanha até a possível oferta de riquezas minerais estratégicas como moeda de troca.

O despacho partiu de uma arguição do PT no âmbito de uma ação do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). Dino entendeu que as denúncias exigem investigação autônoma, sob supervisão direta da Corte, e não poderiam tramitar no processo original.

O que motivou a decisão: relatórios de inteligência e denúncias formais

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) já havia alertado, em relatório pré-eleitoral, para o “alto incentivo” a que atores externos com interesses no Brasil interferissem na disputa. O documento projetava riscos concretos para 2026.

Além do alerta da Abin, três frentes de denúncia convergiram para a mesa do ministro:

  • Atuação de executivos ligados à Rockbridge Network na captação de recursos nos EUA para a campanha de Flávio Bolsonaro;
  • Publicidade paga em perfis estrangeiros, veiculada em português, promovendo odds favoráveis ao mesmo candidato na plataforma Polymarket (bloqueada no Brasil desde 2024);
  • Relatório do Comitê de Supervisão da Meta (dona de Facebook, Instagram e WhatsApp) apontando falhas na integridade eleitoral das plataformas.

O padrão dos anúncios pagos do exterior

Uma representação do candidato Renan Santos (Missão) ao TSE reuniu exemplos concretos: perfis sediados fora do Brasil, pagando por impulsionamento, publicando quase exclusivamente em português e direcionados ao eleitorado brasileiro. “Verifica-se um padrão”, resume a peça.

O detalhe técnico chama a atenção: as postagens citavam probabilidades de vitória na Polymarket, mercado de previsão que não opera legalmente no país. Isso sugere coordenação para contornar a legislação eleitoral brasileira.

Meta e ONU: assimetrias algorítmicas sob suspeita

O relatório da Meta, publicado em 22 de outubro, foi citado nominalmente por Dino. No mesmo período, observadores da ONU listaram irregularidades operacionais durante a eleição:

  • Interrupções temporárias na conta de campanha de um candidato;
  • Diferenças no engajamento, alcance e contagem de visualizações entre candidaturas;
  • Restrições a postagens no Instagram de uma campanha específica;
  • Assimetrias na geração de imagens por IA, buscas no WhatsApp e distribuição de conteúdo político.

Para o ministro, esses elementos reforçam a hipótese de manipulação dolosa de algoritmos para beneficiar ou prejudicar candidaturas.

Terras raras: o elo entre interesse econômico e poder político

O ponto mais sensível da decisão envolve recursos minerais estratégicos. Dino determinou apuração sobre a suspeita de que a exploração de terras raras e minerais críticos em solo brasileiro tenha sido ofertada como contrapartida a apoio eleitoral.

“Os recursos minerais pertencem à União e sua exploração depende de autorização ou concessão concedida no interesse nacional”, frisou o ministro. A investigação deve esclarecer quem propôs, a quem, por qual instrumento e qual seria a contrapartida.

As cinco frentes de investigação da PF

O inquérito foi estruturado em eixos objetivos:

  1. Tratativas entre Rockbridge Network, Tallis Gomes e Pedro Sang — eventuais vínculos entre recursos, serviços ou vantagens econômicas e campanha eleitoral;
  2. Identidade dos pagadores e contratantes da publicidade eleitoral em perfis estrangeiros, origem financeira e participação de agentes no Brasil;
  3. Conexão concreta entre financiamento político e interesses em terras raras e minerais críticos;
  4. Contatos entre representantes da Rockbridge Network e empresários brasileiros — natureza, participantes e finalidade;
  5. Assimetrias dolosas e manipulações algorítmicas por empresas de internet visando favorecer ou prejudicar candidaturas.

O que observar daqui para frente

A investigação corre sob sigilo parcial, mas seus desdobramentos podem redefinir parâmetros de soberania digital e controle de ativos estratégicos no Brasil. Empresas de tecnologia, fundos de investimento estrangeiros e campanhas políticas terão de demonstrar conformidade com a legislação eleitoral e a Lei de Segurança Nacional.

Para o setor privado, o sinal é claro: qualquer operação que cruze fronteira, algoritmo ou recurso mineral estratégico estará sob lupa. A definição de “interesse nacional” ganha contornos práticos — e juridicamente vinculantes — nos próximos meses.