Justiça

PF mira R$ 100 mi em fundo de pensão: o que está por trás da Operação Entressafras

Polícia Federal cumpre mandados na Operação Entressafras contra desvio em fundo de pensão
Agentes da PF investigam esquema de R$ 100 milhões na São Roque Prev, em São Roque (SP).

A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira (27) a Operação Entressafras para investigar desvios que podem ultrapassar R$ 100 milhões na São Roque Prev, entidade que gere a previdência dos servidores municipais de São Roque, no interior paulista. O esquema envolve aplicações irregulares em instituição financeira cujo controlador já está preso.

Nove mandados de busca e apreensão estão sendo cumpridos simultaneamente em São Roque e no estado de Pernambuco. A apuração aponta para crimes de gestão fraudulenta, lavagem de capitais, peculato financeiro e delitos contra a administração pública.

O destino do dinheiro: Banco Master e a conexão Vorcaro

Segundo a investigação, mais de R$ 90 milhões do fundo teriam sido aplicados no Banco Master, instituição ligada a Daniel Vorcaro — empresário que se encontra detido em outra frente de apuração. As movimentações ocorreram entre 2022 e 2024, sem pareceres técnicos ou fundamentação adequada, o que caracteriza violação direta das regras de governança para recursos previdenciários.

Especialistas em compliance previdenciário ouvidos pela reportagem alertam que aportes concentrados em única instituição, sem diversificação e sem análise de risco documentada, configuram indício forte de direcionamento indevido.

Como a fraude afeta o servidor e o contribuinte

O impacto não se limita ao balanço da entidade. Quando um fundo de previdência municipal sofre perdas, a conta recai sobre dois grupos:

  • Servidores ativos e aposentados: risco de atrasos ou redução de benefícios futuros
  • Contribuintes do município: eventual aporte de recursos do tesouro para cobrir déficits atuariais

A legislação previdenciária exige que gestores atuem com prudência e transparência. A ausência de pareceres técnicos — obrigatórios para cada operação — remove a blindagem legal que protegeria os gestores de responsabilização pessoal.

O que a PF busca nos endereços alvos

Os mandados visam apreender documentos contábeis, comunicações eletrônicas, atas de reuniões do conselho deliberativo e registros de sistemas de gestão de investimentos. A expectativa dos investigadores é rastrear a cadeia de decisão: quem autorizou, quem intermediou e quem se beneficiou.

A extensão das buscas a Pernambuco sugere ramificações interestaduais — possivelmente operadores financeiros ou beneficiários finais fora do eixo São Paulo–São Roque.

Cenários para os próximos meses

Três desdobramentos práticos merecem atenção de gestores públicos, investidores e profissionais de compliance:

  • Intervenção na entidade: a Secretaria de Previdência do Ministério da Previdência Social pode decretar regime de intervenção, nomeando interventor para administrar o fundo até a regularização
  • Bloqueio de ativos: a Justiça Federal tende a decretar indisponibilidade de bens dos investigados para garantir eventual reparação
  • Revisão de carteiras em outros municípios: o caso acende alerta para fundos previdenciários de médio porte que concentram aplicações em poucos ativos ou instituições

O que observar daqui para frente

Acompanhe os despachos da 1ª Vara Federal de São Roque e eventuais comunicações da Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc). Se a intervenção for decretada, o interventor terá 180 dias — prorrogáveis — para apresentar plano de saneamento. Para servidores de São Roque, a recomendação prática é monitorar os canais oficiais da São Roque Prev e do sindicato da categoria para orientações sobre eventuais recomposições de cadastro ou atualização de beneficiários.