Cultura

O jogo sujo dos pastores: por que a cúpula evangélica sabotou Flávio Bolsonaro até o último minuto

Pastores evangélicos e Flávio Bolsonaro em encontro político, bastidores de apoio calculado
Lideranças evangélicas negociam apoio a Flávio Bolsonaro em meio a vazamentos comprometedores.

A liderança evangélica fechou com Flávio Bolsonaro na reta final, mas o apoio nasceu de cálculo frio, não de convicção. Meses antes, os mesmos pastores que subiram no palanque articulavam nos bastidores a entrega da eleição para focar em 2030.

O que mudou não foi a fé — foi o vazamento de mensagens entre Alexandre de Moraes e o banqueiro Vorcaro, tornado público pelo ministro André Mendonça em setembro. O episódio incendiou a base e forçou a mão dos líderes religiosos.

O apoio que ninguém queria dar

No centenário da Assembleia de Deus Madureira, lotando o Maracanãzinho, o bispo Samuel Ferreira pediu que o público repetisse: “irmão vota em irmão”. A apóstola Valnice Milhomens profetizou que “não haverá inferno que impeça o mover de Deus nesta nação”.

As câmeras registraram união. Nos corredores, porém, a narrativa era outra. Pastores de grandes denominações admitiam entre si que jogaram parados durante quase toda a pré-campanha. O candidato preferido era Tarcísio de Freitas.

Silas Malafaia, uma das vozes mais influentes do segmento, chegou a gravar vídeos afirmando que “candidatura não é negócio de família” e defendendo abertamente o governador paulista. A resistência tinha nome e endereço: a mansão de R$ 6 milhões financiada pelo BRB, imóveis quitados em dinheiro vivo, o contrato do banqueiro Vorcaro para o filme sobre Jair Bolsonaro e a mentira admitida sobre os encontros com o ex-banqueiro.

A comparação bíblica que circula nos gabinetes

Em conversas reservadas, lideranças evangélicas comparam a família Bolsonaro à casa do sacerdote Eli, do primeiro livro de Samuel. A leitura: um pai honrado que não conteve os filhos, que roubavam ofertas e cometiam imoralidades no templo.

O rótulo colado em Flávio nos bastidores é ainda mais cortante: “novo crente”. O termo, derivado de “novo rico”, descreve quem usa a fé como vitrine política sem domínio da Bíblia, chegando à religião por uma igreja vista como seduzida pelo poder — a Comunidade das Nações.

O pragmatismo falou mais alto

Quando o cenário virou, a máquina evangélica ligou. Três fatores pesaram na virada:

  • Flávio era o único nome da direita com o voto bolsonarista consolidado e chance real de vitória;
  • A pressão da base fiel, que cobrava posicionamento;
  • O interesse estratégico de manter acesso a um futuro presidente da República.

Marco Feliciano, deputado e pastor, resumiu a cobrança em abril, durante encontro na Assembleia de Deus Belém: a relação não podia ser de via única. A família Bolsonaro precisava retribuir o capital político evangélico.

O plano B já estava desenhado

Antes da arrancada de Flávio nas pesquisas, a cúpula evangélica já havia desistido de 2026. O horizonte era Tarcísio para 2030. A adesão tardia ao senador fluminense foi, acima de tudo, uma aposta de sobrevivência — não de alinhamento ideológico.

O xadrez que vem pela frente

Do lado petista, a vitória expôs outro nó: Otoni de Paula, ex-cabo eleitoral do bolsonarismo e conservador nos costumes, não se reelegeu após declarar voto em Lula no primeiro turno. Ainda assim, mantém trânsito nas grandes igrejas. O PT, que historicamente evitou negociar diretamente com a cúpula evangélica, pode precisar dele como ponte.

Para quem acompanha o tabuleiro, dois movimentos valem monitorar: a capacidade de Flávio retribuir o apoio sem repetir os erros que geraram desconfiança, e a disposição do Planalto em abrir canais diretos com as denominações majoritárias. O próximo round não será nas urnas — será na partilha de poder.