Os pastores das maiores igrejas do país subiram no palanque de Flávio Bolsonaro nos dias finais da campanha. Mas, nos bastidores, a resistência durou até setembro — e a adesão nasceu do medo de perder, não da convicção de vencer.
O que parecia unção virou cálculo. E o preço da aliança ainda está sendo cobrado.
O estopim que mudou o jogo
Até meados de setembro, a cúpula evangélica mantinha distância. Silas Malafaia chamava a candidatura de “negócio de família” e defendia Tarcísio de Freitas. Marco Feliciano, em culto na Assembleia de Deus Belém, cobrou reciprocidade dos Bolsonaro em vez de relação de via única.
A virada veio com a divulgação das mensagens entre Alexandre de Moraes e o banqueiro André Vorcaro, tornadas públicas pelo ministro André Mendonça. O episódio incendiou a base bolsonarista. Os pastores entraram em campo depois — não antes.
Por que resistiram tanto a Flávio
Três fatores pesavam contra o senador, segundo lideranças ouvidas em reservado:
- A mansão de R$ 6 milhões financiada pelo BRB, banco público do Distrito Federal
- Imóveis adquiridos com pagamento em espécie
- Recursos de Vorcaro para o filme sobre Jair Bolsonaro e a mentira admitida sobre encontros com o ex-banqueiro
Para esses líderes, Tarcísio era o nome capaz de derrotar Lula. Flávio representava risco de derrota — e, se eleito, comprometia o projeto de poder da direita a longo prazo.
A comparação bíblica que circula nos gabinetes
Em conversas privadas, pastores comparam a família Bolsonaro à casa de Eli, sacerdote do Antigo Testamento. Eli seria um homem honrado que não conteve os filhos, que desviavam ofertas e cometiam abusos no templo. A analogia dispensa explicações.
Flávio carrega ainda outro rótulo interno: “novo crente”. O termo, derivado de “novo rico”, descreve quem usa a fé como atalho político, desconhece a Bíblia e chegou à religião por uma igreja vista como seduzida pelo poder — a Comunidade das Nações.
O pragmatismo falou mais alto
Quando o apoio veio, foi frio. Flávio era o único nome da direita com o voto bolsonarista consolidado e chance real de vitória. Somaram-se a isso a pressão dos fiéis e o interesse estratégico de manter proximidade com um futuro presidente da República.
Antes da arrancada nas pesquisas, porém, a cúpula já havia desistido de 2026. O horizonte havia se deslocado para 2030 — com Tarcísio no topo da chapa.
O xadrez que segue após a eleição
O PT evitou citar Otoni de Paula na vitória. Deputado conservador e ex-cabo eleitoral do bolsonarismo, ele declarou voto em Lula no primeiro turno e não se reelegeu. Mas não saiu do tabuleiro. Visto com desconfiança pelos petistas, pode se tornar ponte para negociar com as grandes denominações — algo que o partido e seus evangélicos não quiseram ou não conseguiram fazer até aqui.
O que observar daqui para frente
A aliança evangélica com Flávio nasceu tardia, relutante e transacional. Não há fidelidade garantida. O senador assume com uma base que o tolera por necessidade, não por identificação. Qualquer sinal de fraqueza política — ou novo escândalo — fará os mesmos pastores recalcularem a rota. O projeto de 2030 continua vivo nos bastidores. E o voto de cabresto, cada vez mais, é uma lenda do passado.
