O Banco Central confirmou 99 incidentes cibernéticos apenas nos primeiros nove meses do ano, superando o total de 2025 inteiro. O detalhe que acende o alerta vermelho: as fraudes dispararam 74% no período. O sistema financeiro segue funcionando, mas as rachaduras expostas exigem atenção imediata de quem gere risco.
O salto nos números que ninguém esperava
Até setembro, a autoridade monetária contabilizou 99 episódios. Para efeito de comparação, o ano de 2025 fechou com 76 ocorrências e 2024 com 59. Estamos diante de uma alta de 30% no volume total de incidentes em relação ao exercício anterior.
O protagonismo, contudo, pertence às fraudes. Elas respondem por 68 dos 99 casos — 69% do total. No ano passado, a proporção era de 51% (39 de 76). Em números absolutos, o aumento de eventos classificados como fraude atinge 74%, muito acima da média geral.
Por que a interconexão virou arma dos criminosos
O diagnóstico do BC aponta três vetores que amplificam o estrago de vulnerabilidades localizadas: a interconectividade entre instituições, a concentração de serviços tecnológicos em poucos provedores e a velocidade de dispersão dos recursos.
Incidentes em prestadores de serviços terceiros permanecem como ponto crítico. Uma falha concentrada em um único fornecedor tem potencial de contágio sistêmico imediato, transformando um problema operacional isolado em crise de liquidez ou reputação para múltiplos bancos simultâneos.
As 5 portas abertas que os bandidos estão explorando
O relatório de estabilidade financeira lista falhas recorrentes que facilitam a ação criminosa. Gestores de TI e conformidade devem priorizar o fechamento dessas brechas:
- Gestão de terceiros: deficiências no monitoramento e controle de acessos de fornecedores.
- Credenciais privilegiadas: gerenciamento frágil de senhas, chaves e certificados digitais.
- Interfaces expostas: painéis administrativos e serviços expostos indevidamente à internet.
- Falta de segregação: ambientes de produção, desenvolvimento e teste misturados.
- Ativos legados e cegueira monitorada: sistemas antigos sem suporte, credenciais obsoletas e falhas na geração de logs e detecção de anomalias.
Prejuízo real, mas sistema de pé
O BC admite que episódios específicos causaram perdas financeiras relevantes para as vítimas diretas. Entretanto, a autoridade reforça: o funcionamento do Sistema Financeiro Nacional (SFN) não foi comprometido em nenhum momento. A resiliência operacional, até aqui, segurou o tranco.
Mas o tom do comunicado não é de conforto. A autarquia sinaliza que a evolução das táticas criminosas exige evolução paralela nas defesas. A estratégia atual foca em monitoramento contínuo, resposta a incidentes relevantes e desenvolvimento de iniciativas para endurecer a resiliência cibernética e operacional do setor.
O que observar daqui para frente
O cenário exige que conselhos de administração e comitês de risco tratem segurança cibernética como risco de negócio, não apenas de TI. A concentração em provedores de nuvem e processadores de pagamento cria pontos únicos de falha sistêmica. Daqui para frente, a capacidade de demonstrar gestão robusta de terceiros, segregação de ambientes e monitoramento de comportamento anômalo deixará de ser diferencial competitivo para virar requisito de permanência no mercado. Quem não endereçar as cinco vulnerabilidades listadas acima estará, estatisticamente, no radar do próximo relatório.
