A A55 Sociedade de Crédito Direto encerrou a conta do advogado Willer Tomaz de Souza e bloqueou seu CPF para novas operações após o setor de compliance detectar movimentações atípicas com indícios de lavagem de dinheiro. O caso foi comunicado ao Coaf. A conta servia, segundo investigações, para canalizar recursos ao site de apostas Blaze.
O volume financeiro envolvido chama a atenção: uma nota técnica do Ministério da Fazenda aponta Tomaz como o maior apostador do Brasil em 2025, com R$ 5 bilhões em lances. Documentos acessados pela reportagem mostram que, em 2026, ele adicionou mais R$ 1,3 bilhão. A Blaze foi o destino prioritário nos dois anos.
O que a fintech encontrou
A A55 comparou o comportamento da conta às diretrizes da lei antilavagem e identificou “red flags” — operações incomuns ou sem justificativa econômica aparente. O procedimento padrão nesses casos prevê o bloqueio imediato, o reporte ao Coaf e a vedação de novos cadastros pelo mesmo CPF.
A instituição, criada em 2022 e sediada na Consolação (SP), tem capital social de R$ 3,1 milhões e sócios André Wetter e Hugo Mathecowitsch. Além de crédito direto, atua em desenvolvimento de software, cobrança e gestão de dados cadastrais.
O próprio regulador mira a A55
Em julho, o Banco Central tornou pública a intenção de cancelar a autorização de funcionamento da fintech. O comunicado cita o descumprimento do plano de negócios, a ausência da atividade autorizada no endereço cadastrado ou a interrupção das operações como fundamentos legais para a sanção. O processo corre sob sigilo.
O rastro das apostas em números
- 2025: R$ 5 bilhões apostados — maior volume individual do país, segundo Ministério da Fazenda.
- 2026: R$ 1,3 bilhão adicionais — documentos mostram a continuidade do fluxo.
- Destino principal: Blaze, plataforma que, conforme a Fazenda, não cumpriu obrigações de fiscalização e controle para operar no Brasil.
A polícia suspeita que o volume e a concentração em uma única casa de apostas sirvam para ocultar a origem de recursos ilícitos. Tomaz é alvo de inquérito da Polícia Federal que também envolve o senador Flávio Bolsonaro (PL), sob suspeita de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
As defesas
A assessoria de Tomaz afirma que os recursos têm origem lícita, são compatíveis com seus rendimentos e constam na declaração de Imposto de Renda. Contesta os valores apresentados pela Fazenda e questiona o vazamento de dados sigilosos em período eleitoral. O advogado não comentou especificamente o bloqueio pela A55.
Já a assessoria de Flávio Bolsonaro sustenta que o senador não é investigado no Supremo Tribunal Federal e que os autos remetidos à Corte ainda não se converteram em inquérito, à espera de manifestação da PGR.
O que observar daqui para frente
Três frentes merecem monitoramento: o desfecho do processo administrativo do Banco Central contra a A55, que pode alterar o cenário de fintechs de crédito direto; o andamento do inquérito policial sobre a origem dos valores apostados; e a eventual responsabilização da Blaze por falhas de compliance que permitiram o fluxo. Para o mercado, o caso reforça a necessidade de controles robustos de know your customer (KYC) em plataformas que movimentam grandes volumes em curtos intervalos.
