O Ibovespa entregou valorização expressiva em todos os três primeiros mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva, mas o cenário para um eventual quarto ciclo aponta para uma ruptura desse padrão histórico. A desaceleração econômica e o aperto fiscal prometem testar a resiliência do mercado como nunca antes.
Dados da Bloomberg compilados mostram que o índice avançou 294% no primeiro mandato, 55,8% no segundo e 60,9% no terceiro (até o fechamento de 26 de agosto). O que muda agora não é o presidente, mas a matemática por trás do crescimento.
O motor do passado: commodities e geopolítica
Nos dois mandatos iniciais, entre 2003 e 2010, o “superciclo das commodities” fez o trabalho pesado. A entrada da China na OMC, em 2001, disparou a demanda por minério e soja, empurrando o Ibovespa para ganhos muito acima do índice de emergentes (MSCI). O dólar, reflexo desse fluxo, desabou quase 40% no primeiro período.
No terceiro mandato, a lógica inverteu-se. Sem o boom de matérias-primas, a Bolsa surfou em dois vetores distintos:
- Externo: Guerras e sanções à Rússia fecharam portas em outros emergentes, tornando o Brasil “refúgio” relativo para capital estrangeiro.
- Interno: Expectativas de queda da Selic e apostas políticas — especialmente nas reta final de 2022 — injetaram volatilidade compradora.
Mesmo assim, o desempenho ficou ligeiramente abaixo do MSCI Emergentes (60,9% contra 63,4%), e o dólar acumulou alta de 2,15%, sinalizando que o “colchão” externo já não amortece como antes.
A correlação que ninguém ignora: PIB e Ibovespa
Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, a equação é direta: “Bolsa gosta de crescimento”. A média do PIB nos 12 anos de governos Lula foi de 3,6% ao ano. No primeiro mandato, 3,5%; no segundo, 4,7%; no terceiro, 2,7%.
O problema é a projeção para os próximos anos. O Boletim Focus mais recente, anterior ao segundo turno de 2022, desenha um quadro bem diferente:
- PIB 2024: 1,80%
- PIB 2025: 1,31%
- Selic fim de 2024: 13,25%
- Selic fim de 2025: 11,75%
Se confirmados, seriam os menores crescimentos de toda a série histórica dos governos petistas, combinados com juros ainda restritivos por mais tempo.
O desafio fiscal que muda a regra do jogo
Einar Rivero, CEO da Elos Ayta, resume o dilema: a atratividade relativa do Brasil entre emergentes continua existindo, mas ela deixa de ser suficiente se o risco interno subir. A necessidade de corte de gastos — prometida, mas ainda não detalhada com credibilidade total pelo mercado — virou a variável decisiva.
Sem o vento a favor das commodities e com juros altos freando o consumo e o investimento, a Bolsa perde seus dois principais combustíveis recentes: fluxo externo “por eliminação” e alívio monetário interno rápido.
O espelho retrovisor: lições de FHC, Dilma e Bolsonaro
A história recente reforça a tese de que fundamentos internos superam partidos. Fernando Henrique Cardoso viu o Ibovespa subir 55,8% e 66% em seus mandatos, ancorado no Plano Real. Dilma Rousseff, por outro lado, presenciou queda de 27,8% no primeiro mandato — pior que o MSCI — em meio a intervenções estatais e deterioração fiscal.
No governo Bolsonaro (2019-2022), o índice subiu 24,8% enquanto o MSCI caía 0,97%, beneficiado pela reforma da previdência e choque de commodities pós-pandemia, mas penalizado pelo dólar alto (+36%).
O que observar daqui para frente
O segredo não está no nome do ocupante do Planalto, mas na capacidade de entregar um arcabouço fiscal crível que permita a Selic cair de forma sustentável. Se o crescimento do PIB ficar travado na casa de 1,5% a 2% ao ano, a tendência histórica sugere que o Ibovespa terá dificuldade para replicar os saltos de dois dígitos anuais do passado. O investidor que olhar apenas para o retrovisor — “Lula faz Bolsa subir” — corre o risco de ignorar que o motor que empurrou o carro nos últimos 20 anos trocou de combustível, e o tanque novo ainda não foi testado em estrada longa.
