A aliança entre a bancada evangélica e Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro nasceu de um cálculo frio, não de convicção. Líderes das maiores denominações do estado admitiam, em reservado, que o senador era a “opção menos ruim” — e só embarcaram de vez quando a alternativa virou pó.
O que parecia unção divina no palanque foi, nos bastidores, uma negociação de sobrevivência política. Entender essa engrenagem explica muito do que vem pela frente na relação entre fé e poder no Brasil.
O apoio que chegou tarde — e por interesse
Até setembro, o silêncio dos mega-pastores era ensurdecedor. Silas Malafaia, voz mais influente do segmento, gravou vídeos dizendo que “candidatura não é negócio de família” e declarando preferência por Tarcísio de Freitas. O deputado Marco Feliciano usou o púlpito da Assembleia de Deus Belém para cobrar reciprocidade dos Bolsonaro, em vez de “via única”.
A virada veio com o vazamento das mensagens entre Alexandre de Moraes e o empresário Eduardo Vorcaro, tornado público pelo ministro André Mendonça. O episódio incendiou a base bolsonarista. Os pastores, então, calcularam: Flávio era o único nome com lastro eleitoral para vencer.
A “família de Eli” e o peso da mansão de R$ 6 milhões
Em conversas privadas, lideranças evangélicas comparam os Bolsonaro à família do sacerdote bíblico Eli — homem honrado que não conteve os filhos. O rótulo cola nas denúncias que cercam o senador: a mansão financiada pelo BRB, imóveis pagos em espécie, recursos de Vorcaro para o filme sobre Jair Bolsonaro e a mentira admitida sobre encontros com o ex-banqueiro.
Para completar, Flávio carrega o estigma de “novo crente” — termo que, no meio, equivale a “novo rico” espiritual: quem usa a fé como trampolim sem conhecer a doutrina, frequentando a Comunidade das Nações, vista como igreja “deslumbrada pelo poder”.
O pragmatismo por trás da oração no Maracanãzinho
Quando a apóstola Valnice Milhomens profetizou que “não haverá inferno que impeça o mover de Deus” e o bispo Samuel Ferreira fez a multidão repetir “irmão vota em irmão”, o roteiro já estava escrito. Os pastores somaram três variáveis:
- O voto bolsonarista fiel, transferível ao filho;
- A pressão da base, que cobrava posição;
- A proximidade com um futuro presidente da República.
Antes da arrancada de Flávio nas pesquisas, porém, o consenso nos gabinetes pastorais era outro: “já perdemos 2026, vamos preparar Tarcísio para 2030”.
O caso Otoni e o xadrez do PT com os evangélicos
Do lado vencedor, a omissão também fala alto. O PT não citou Otoni de Paula no discurso da vitória. Conservador nos costumes e ex-cabo eleitoral do bolsonarismo, o deputado não se reelegeu ao declarar voto em Lula no primeiro turno. Mas não saiu do tabuleiro.
Visto com desconfiança pelos petistas, Otoni pode virar ponte de negociação com as grandes igrejas — algo que o PT e seus próprios evangélicos não quiseram ou não conseguiram construir até aqui.
O que observar daqui para frente
A aliança costurada em 2024 é frágil. Flávio deve o mandato a um eleitorado que ele não controla e a pastores que o toleram por falta de alternativa. Qualquer tropeço ético ou sinal de enfraquecimento do clã Bolsonaro fará a bancada evangélica recalcular a rota — e o nome de Tarcísio voltará ao centro da mesa, agora com quatro anos de governo São Paulo no currículo.
Para quem acompanha o tabuleiro político-econômico, a lição é clara: no Brasil, fé e voto seguem a lógica do retorno sobre investimento. E o capital político, como o financeiro, migra para onde o risco compensa.
