Justiça

Lula reeleito: Congresso Called, Flávio perde passaportes e Trump ataca sem provas…

Lula reunido com Arthur Lira e Rodrigo Pacheco no Palácio da Alvorada após reeleição apertada
Presidente Lula articula com líderes do Congresso no Alvorada após vitória por 50,9% dos votos.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) amanheceu esta segunda-feira (31) no Palácio da Alvorada recebendo os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), além de líderes partidários. O encontro selou a primeira articulação política após a vitória mais apertada da história recente — 50,9% contra 49,1% —, mas a transição promete turbulências que vão muito além do plenário.

Enquanto a festa da vitória ainda ecoava nas ruas de São Paulo até a madrugada, três frentes distintas se moviam nos bastidores: uma ofensiva judicial contra o clã Bolsonaro, uma ruptura interna no Partido Liberal e uma interferência externa sem precedentes vinda da Casa Branca.

O cerco ao senador Flávio Bolsonaro

A Polícia Federal intimou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a entregar seus passaportes — o diplomático e o comum — ao Supremo Tribunal Federal em até 24 horas. A ordem partiu do ministro Alexandre de Moraes, no âmbito de investigação que apura suposta tentativa de obstrução de justiça.

A medida atinge diretamente o filho mais velho do ex-presidente, que vinha adotando tom belicoso nas redes sociais. Horas antes da intimação, Flávio havia declarado que o PL entraria com pedido de cassação da chapa Lula-Alckmin. O partido, porém, desautorizou o senador publicamente.

Partido Liberal rompe com discurso do 01

Em nota oficial, a Executiva Nacional do PL afirmou reconhecer “o resultado das urnas” e disse que não há “fundamento jurídico” para questionar a lisura do pleito. A declaração expõe racha entre a cúpula partidária — que controla a maior bancada da Câmara com 99 deputados — e a ala ideológica bolsonarista.

Valdemar Costa Neto, presidente da sigla, articulou nos bastidores para evitar desgaste institucional. O cálculo é pragmático: o PL comanda ministérios-chave em governos estaduais e precisa manter canais de negociação com o Planalto.

  • 99 deputados — maior bancada da Câmara
  • 3 governadores eleitos pelo PL em 2022 (SP, RJ, PR)
  • 4 senadores na legislatura que se inicia em 2023

Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor: a resposta internacional ao resultado.

Trump acusa fraude sem evidências; Alckmin rebate

O ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usou sua rede social Truth Social para declarar que a eleição brasileira “pareceu fraudada”. Não apresentou provas, documentos ou referências a relatórios de observadores internacionais — a missão da OEA e a do Parlamento Europeu atestaram normalidade no processo.

O vice-presidente eleito Geraldo Alckmin (PSB) respondeu em tom diplomático, mas firme: “O Brasil tem instituições sólidas, eleições auditáveis e resultado reconhecido pela comunidade internacional.” A fala sinaliza a linha que o novo governo deve adotar: não escalar conflito, mas não aceitar questionamentos infundados.

O que observar daqui pra frente

A posse em 1º de janeiro é o marco formal, mas o xadrez real já começou. Três variáveis definirão os cem primeiros dias: a velocidade da transição orçamentária (a PEC da Transição precisa de 308 votos na Câmara), a composição do ministério — que deve equilibrar PT, MDB, PSD, União Brasil e PSB — e o desdobramento dos inquéritos no STF que miram aliados do antigo governo.

Para o empresariado e investidores, o sinal relevante não está nos discursos de palanque, mas na disposição do Congresso em aprovar a âncora fiscal substituta ao teto de gastos. Lira e Pacheco saíram do Alvorada com a promessa de votar o texto ainda em dezembro. Se cumprem, o mercado ganha previsibilidade. Se não, o real e a curva de juros reagirão antes mesmo da posse.

O cenário externo adiciona ruído: a eventual volta de Trump à Casa Branca em 2025 tornaria a relação bilateral volátil. Até lá, o Itamaraty de Mauro Vieira terá de navegar entre a defesa da soberania eleitoral e a manutenção do fluxo comercial de US$ 75 bilhões anuais com os EUA.

O recado da noite de domingo foi claro: a vitória nas urnas não garante governabilidade. Ela apenas abre a porta para a negociação diária que definirá se o terceiro mandato será de reconstrução ou de paralisia.