Economia

Reforma tributária: 25 grupos de trabalho nascem em ato sigiloso — o que muda para o seu negócio

Reunião de técnicos da Receita Federal e CGIBS definindo 25 grupos de trabalho da reforma tributária
Especialistas analisam a estrutura dos novos grupos que vão operacionalizar CBS e IBS no Brasil.

A Receita Federal e o Comitê Gestor do IBS (CGIBS) publicaram, na segunda-feira (26), o ato técnico conjunto nº 9 que institui 25 grupos de trabalho para operacionalizar a reforma tributária. A medida saiu um dia após as eleições e desenha a arquitetura que vai substituir cinco tributos atuais por dois novos: a CBS, de competência federal, e o IBS, compartilhado entre estados e municípios.

Cada grupo terá oito integrantes — quatro de cada órgão — e decisões exigirão dois terços dos votos. O sigilo das discussões é obrigatório. Para empresas e investidores, o recado é claro: a transição deixou o papel e entrou na fase de execução técnica.

Como a estrutura foi desenhada para não travar

A paridade entre Receita e Comitê Gestor não é apenas simbólica. Ela impede que a União ou os entes subnacionais imponham regras sozinhos. O quórum de dois terços força consenso, mas também pode alongar prazos se houver divergências profundas — especialmente em temas sensíveis como combustíveis, imóveis e agronegócio.

Os 25 grupos cobrem toda a cadeia de valor do novo sistema. Veja a divisão por eixos temáticos:

  • Setoriais: comércio exterior, imóveis, agronegócio, serviços financeiros, planos de saúde, economia digital, combustíveis, regimes diferenciados.
  • Operacionais: cadastro, fiscalização, tecnologia, arrecadação, apuração, ressarcimento de créditos, qualidade de dados, quantificação.
  • Instrumentais: documentos fiscais, declarações, atendimento ao contribuinte, Simples Nacional.

O que isso significa para o caixa da empresa

Os grupos de arrecadação, apuração e ressarcimento de créditos são os que mais impactam fluxo de caixa no curto prazo. A padronização de documentos fiscais e declarações definirá o custo de compliance — e a velocidade de devolução de créditos do IBS/CBS ditará a necessidade de capital de giro.

Já os grupos de tecnologia e intercâmbio de dados determinam se a integração entre sistemas federais, estaduais e municipais funcionará no prazo. Atrasos aqui significam multas, retrabalho e insegurança jurídica para quem emite nota fiscal hoje.

Pontos de atenção que não estão no ato, mas pesam na prática

A composição paritária resolve a governança, mas não elimina a assimetria de capacidade técnica. A Receita Federal tem corpo funcional histórico e bases de dados consolidadas. O Comitê Gestor está nascendo agora. A curva de aprendizado dos representantes estaduais e municipais pode criar gargalos nos primeiros ciclos de deliberação.

Outro vetor: o sigilo. Ele protege negociações sensíveis, mas reduz a previsibilidade para o setor privado. Empresas não terão acesso aos debates sobre alíquotas de referência, regras de crédito ou critérios de rateio do IBS até que atos normativos sejam publicados.

Cronograma realista: o que observar daqui para frente

O ato não fixa prazos de entrega por grupo. A experiência de reformas anteriores sugere que os primeiros produtos — manuais de procedimentos, leiautes de arquivos, regras de cadastro — devem surgir entre o fim de 2026 e o primeiro semestre de 2027. O Simples Nacional terá grupo dedicado, o que indica tratamento diferenciado para micro e pequenas empresas, mas os detalhes ainda dependem de regulamentação.

Checklist para o gestor acompanhar nas próximas semanas:

  • Publicação dos primeiros atos normativos decorrentes dos grupos de documentos fiscais e cadastro.
  • Definição de cronograma de testes de integração entre sistemas (Receita, Comitê, SEFAZs).
  • Regras transitórias de crédito de PIS/Cofins e ICMS para o novo modelo.
  • Posicionamento do seu setor nos grupos de regimes diferenciados — é lá que exceções e benefícios serão negociados.

A reforma tributária deixou de ser promessa de campanha e virou agenda de entrega técnica. Quem mapear os grupos que afetam sua operação e antecipar ajustes de sistemas, processos e contratos ganha tempo — e caixa — na transição.