O fundador de um escritório de imigração transformou o resultado das urnas em campanha de vendas e viu a procura por vistos quintuplicar em 24 horas. A estratégia misturou alarmismo político e promessa de “solução rápida e legal” para quem quer tirar o patrimônio do país.
O pico de demanda aconteceu entre o domingo do segundo turno e a segunda-feira seguinte. O que isso revela sobre o comportamento do investidor brasileiro diante de mudanças de poder?
O gatilho: stories, vídeo e a promessa de saída
Leonardo Freitas, CEO da Hayman Woodward — banca com base em Washington e Dubai — usou o próprio perfil no Instagram, seguido por mais de 180 mil pessoas, para anunciar a “oportunidade”. Em uma sequência de stories, ele compartilhou a notícia da reeleição e perguntou: “E você achando que o Brasil é um país sério… que tal passar os próximos cinco anos fora do Brasil?”.
Em outro post, foi direto: “independente do resultado final, se os últimos acontecimentos não te convenceram a tirar todo o seu patrimônio de longo prazo do Brasil, eu não sei o que irá”.
O fechamento veio em vídeo no feed: “Você tem um problema, você não está satisfeito com o resultado das eleições do Brasil e agora você não sabe o que fazer. Se você tem vontade de migrar para os Estados Unidos, Europa, Emirados Árabes Unidos, Singapura, inclusive outros países pelo mundo, nós temos a solução para você. Uma solução rápida, segura e totalmente legal.”
O efeito imediato: de 50 para 300 pedidos por dia
Segundo a própria empresa, a média diária de solicitações saltou de 50 para 300 — alta de 500% — no intervalo de um dia. O volume concentrou-se, sobretudo, na região Sul do país.
Para dimensionar a operação: a Hayman Woodward afirma ter aprovado, ao longo de sua história, mais de 55 mil green cards (residência permanente nos EUA). O número coloca o escritório entre os maiores players do nicho de imigração por investimento e vistos de talento.
Perfil de quem procura: patrimônio, não apenas passaporte
O discurso de “tirar o patrimônio de longo prazo” mira um público específico. Não se trata de quem busca refúgio humanitário, mas de investidores e profissionais de alta renda que enxergam risco regulatório, tributário ou cambial no novo ciclo político.
- Origem geográfica: Sul do Brasil lidera a demanda
- Destinos preferidos: EUA, Portugal, Emirados Árabes, Singapura
- Viés do pedido: vistos de investidor (EB-5), talentos excepcionais (EB-1/O-1) e residência por investimento na Europa
- Urgência: maioria quer iniciar o processo em até 90 dias
Essa pressa costuma encarecer honorários e taxas governamentais, além de elevar o risco de erros documentais que geram recusas ou pedidos de complementação (RFEs, no jargão americano).
O que muda na prática para o candidato a migrante
O pico de procura pressiona dois lados: a capacidade de processamento dos escritórios e a fila nos consulados e no USCIS (órgão de imigração dos EUA). Historicamente, ondas de demanda pós-eleitorais geram:
- Aumento de 20% a 40% nos prazos de agendamento de entrevista consular
- Maior escrutínio em casos de EB-5 — fonte dos fundos vira foco central
- Disputa por vagas anuais em categorias com teto numérico (ex.: H-1B, EB-3)
Do lado brasileiro, a Receita Federal mantém regras estritas de saída definitiva (Declaração de Saída Definitiva, apuração de ganho de capital, tributação de trustes e offshores). Quem sai sem planejamento tributário prévio costuma enfrentar autuações posteriores.
Cenários para os próximos meses
Três variáveis vão ditar se o movimento se sustenta ou arrefece:
- Medidas econômicas dos primeiros 100 dias de governo — pacote fiscal, reforma tributária e regras de remessa de lucros/dividendos
- Mudanças na legislação de imigração dos países-alvo — EUA e Portugal já ajustaram critérios de vistos dourados em 2023/2024
- Câmbio e juros — dólar acima de R$ 5,20 e Selic em dois dígitos encarecem o aporte mínimo exigido nos programas de investimento
O que observar daqui pra frente
Se você está avaliando uma migração patrimonial, o momento pede frieza. Compare honorários, exija plano de contingência para RFEs e negocie cláusulas de sucesso (fee condicionado a aprovação). Verifique se o escritório tem advogado licenciado no país de destino — no caso dos EUA, apenas advogados admitidos na barra de um estado podem assinar petições ao USCIS. Por fim, simule o custo total de saída: imposto de saída, custos cartorários, tradução juramentada, taxas consulares e reserva de caixa para 12 a 18 meses sem receita brasileira. O alarme eleitoral passa; a estruturação malfeita fica.
